Tondo Doni. Detalhe: a cabeça da Virgem

Levi d`Ancona [1968:43] detecta na preeminência visual da Virgem a chave da interpretação iconológica da obra, no âmbito da controvérsia entre maculistas (dominicanos) e imaculistas (franciscanos), relativa à doutrina da Imaculada Concepção de Maria.

Esta doutrina foi proclamada pelos franciscanos e promulgada em 1480 por Sixto IV, ele próprio um franciscano, na forma de uma Festa da Imaculada Concepção da Virgem. Contra ela, os dominicanos opunham a da Santificação ou da Purificação de Maria, segundo a qual Maria teria sido santificada, não desde o início da Criação, mas apenas no útero de sua mãe ou após a Anunciação. Entre as expressões artísticas mais importantes desta violenta controvérsia estariam a Virgem dos Rochedos* de Leonardo da Vinci e o Tondo Doni. A primeira, encomendada pela Confraria da Imaculada Concepção de Maria, em Milão, exprime o ponto de vista imaculista. O segundo, ao contrário, defenderia o ponto de vista maculista, dada a influência dos dominicanos do convento de San Marco.

Sempre segundo a autora:

“O ponto de vista ilustrado na Madona Doni é que Maria foi santificada no momento da incarnação de Cristo. O Menino Jesus Deus encarnado em forma humana está saindo do corpo da Virgem para tomar sua forma humana, e ao mesmo tempo abençoa sua mãe, outorgando lhe uma especial santificação”.

Dois estudos de Hayum [1981 82:209] e de Natali [1985] enfatizam o grupo da Sagrada Família. Para Hayum, ao lado da construção de uma nova residência, de um sepulcro na igreja de Badia e dos retratos* do casal por Rafael, o Tondo Doni participa do esforço de estabelecer uma nova linhagem Doni e uma nova mitologia familiar, após a aliança com os Strozzi. O fato de que, no verso dos retratos de Rafael, Agnolo Doni tenha feito pintar, pelo Maestro di Serumido, as cenas diluvianas do mito de Deucalião e Pirra (Ovídio, Metamorfoses, I, 260-415) reforça a idéia de um renovamento daquela linhagem. O Tondo Doni aparece, neste contexto, na intensa iluminação, no cromatismo metálico e na descomunal escala da Sagrada Família, como “uma verdadeira apoteose da família”, em contraste com a Madona com o Menino Jesus e Santa Ana de Leonardo, no Louvre, que acentua a ascendência matrilinear de Jesus e, consequentemente, como já notado por Levi d`Ancona, o imaculismo da Virgem.

Luiz Marques
26/10/2010

Bibliografia
1968 – M. Levi D`Ancona, “The Doni Madonna by Michelangelo: an iconographic study”. Art Bulletin, 50, 1, pp. 43-50.
1981 – A. Hayum, “Michelangelo`s Doni Tondo: Holy Family and Family Myth. Studies in Iconography, 7, 8, p. 209

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1504/ 1507

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

91 x 80 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

606A - Anunciação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo;
606A18 - A Sagrada Família

Autor

Luiz Marques

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