A Circuncisão de Jesus Cristo

“Pintada por Orazio Gentileschi (1563-1639) entre 1605 e 1607
para o altar maior da Chiesa del Gesù, a igreja dos jesuítas
de Ancona, a obra representa a circuncisão de Jesus, ato
pelo qual se exprime sua obediência à Lei mosaica, mas
também o momento primeiro de efusão de seu sangue, pelo
qual se revela sua humanidade.

Como nota Keith Christiansen, em sua magistral descrição da
obra, aqui quase integralmente citada, são manifestas as
relações entre a composição e as três meditações sugeridas
pelos Esercizi spirituali de S. Inácio de Loyola:

“”A primeira meditação diz respeito ao ato da circuncisão,
que Orazio apresenta alinhada ao eixo vertical da pintura: o
sacerdote com turbante na cabeça, cumpre o rito, enquanto
seus instrumentos formam uma belíssima natureza morta, e o
recém-nascido, repousando em uma almofada, dirige à mãe um
olhar de expectativa””.

“”O tema da segunda meditação – ´Foi-lhe imposto o nome de
Jesus, a ele dado pelo anjo antes que fosse concebido no
útero´ – é indicado pelas iniciais do nome de Cristo, IHS,
circundadas por raios de luz e adoradas por querubins.
Acima, aparece Deus Pai, a cabeça emoldurada por uma auréola
triangular alusiva à Trindade, uma das mãos levantadas para
um anjo. Com a mão esquerda posta sobre o coração e a
direita estendida para o nome de Jesus, este olha o recém-
nascido com ternura. Esta parte da composição remete aos
retábulos medievais nos quais Deus confia a Gabriel a missão
da Anunciação””.

“”Para a terça meditação, S. Inácio observa: ´Restituem a
criança à mãe, que se compadece do filho pelo sangue
vertido´. Maria é figurada à direita, as mãos postas em ato
devoto, enquanto dirige ao filho um olhar amoroso. À sua
direita está José, encarregado pelo anjo de impor o nome
Jesus.

“”Em torno do grupo compacto de personagens, que inclui
também um segundo sacerdote e dois acólitos, encontram-se
outras figuras complementares: à esquerda, um velho e um
jovem que com seus gestos parecem trocar pareceres sobre o
significado do episódio; à direita, uma jovem e uma velha””.

“”É possível que nos dois velhos o pintor tenha desejado
representar o devoto Simão e a profetisa Ana, que aguardavam
em vigília no Templo a chegada do Messias; ambos tinham dado
testemunho de Cristo por ocasião da Purificação da Virgem
(que se celebra em 2 de fevereiro), mas como o Evangelho de
Lucas descreve a Purificação imediatamente após a
Circuncisão, e tratando-se de um episódio relacionado com o
reconhecimento da divindade de Cristo, Orazio (ou seu
conselheiro eclesiástico) poderia ter decidido inserir as
duas figuras para enriquecer o tema da própria Circuncisão
(Simão e Ana são o ponto focalizado pela segunda e pela
terceira meditação sobre a Purificação da Virgem””.

A circumcisio (peritomè em grego) era um rito
lustral que os judeus haviam assimilado dos egípcios. Eles a
executavam no oitavo dia após o nascimento e a operação era
confiada a um sacerdote denominado mohel.

A importância da circuncisão permanece imensa na devoção
católica pós-tridentina e era mesmo a festa principal dos
jesuítas, de onde sua presença no altar maior da Chiesa del
Gesù de Ancona. A troca de olhares entre a Virgem e
o Menino no quadro de Gentileschi pode aludir ao fato de que
a circuncisão de Jesus era considerada a primeira das “”Sete
Dores”” da Virgem. Além de S. Giovanni in Laterano, havia
diversas outras igrejas que reivindicavam a relíquia do
“”Santíssimo Prepúcio”” do Cristo (três, segundo o “”Tratado
das Relíquias”” de Calvino, de 1587), malgrado a controvérsia
teológica a respeito da eventualidade de que o Cristo
tivesse ressuscitado com ele.

Deve-se ter também presente que, sempre segundo a lei
mosaica, o parto havia maculado a pureza da mãe. Ela devia,
assim, quarenta dias após o nascimento de seu filho,
proceder à própria Purificação no Templo, ocasião de uma
oferenda que consumava o rito de purificação.

Sobre as circunstâncias que cercam a encomenda do quadro, é
sabido que este nasce de uma iniciativa de Giovanni Nappi,
em conexão com a construção da igreja iniciada em 14 de
abril de 1605, de que ele é também o patrocinador. O
retábulo foi colocado no altar a que se destinava em 24 de
junho de 1607. É possível que as instruções teológicas da
composição tenham sido fornecidas por Claudio Acquaviva,
quinto Superior Geral dos Jesuítas (1581-1615), em Roma,
cuja influência é novamente em alta graças ao apoio recebido
por Camillo Borghese, eleito papa em 1605 com o nome de
Paulo V.

É evidente, como ressaltado ainda por Christiansen, a
tentativa de Gentileschi de um compromisso entre Caravaggio
e uma pintura mais decorosa segundo os padrões da devoção
propugnada pela Igreja reformada.

Luiz Marques
16/04/2012

Bibliografia
2001 – K. Christiansen, J.W. Mann, Orazio e Artemisia
Gentileschi. Catálogo da exposição, Roma, Palazzo Venezia.
Genebra-Milão: Skira, pp. 64-67.”

Artista

GENTILESCHI, Orazio

Data

1605/ 1607

Local

Ancona, Chiesa del Gesù

Medidas

390 x 252 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

606A9 - Apresentação ao Templo e Circuncisão de Cristo

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *