Retrato de Francesco Giamberti

É póstumo o retrato que Piero di Cosimo pinta de Francesco Giamberti (1404-1480), patriarca da excepcional família de artistas florentinos que toma o nome de Sangallo, em razão de sua residência perto da Porta di San Gallo em Florença.

O retrato de Francesco Giamberti era parte de um díptico que exibia na outra aba o retrato de seu filho, Giuliano da Sangallo* (1445c.-1516), também ele conservado no Rijksmuseum de Amsterdam, mas conhecido por Vasari quando ainda em posse de Francesco da Sangallo (1494-1576), filho de Giuliano:

Francesco ancora ha di mano di Piero (…) dua ritratti, l´uno di Giuliano suo padre, l´altro di Francesco Giamberti suo avolo, che paion vivi

“Francesco tem ainda da mão de Piero (…) dois retratos, um de Giuliano seu pai, outro de Francesco Giamberti seu avô, que parecem vivos”

O modelo deste rosto em perfil post mortem é com toda a probabilidade uma medalha, implantada sobre um busto visto em diagonal, não sem certa dificuldade. Vestido de modo tão austero quanto o filho, Francesco era carpinteiro, mas também músico e é como músico que Giuliano, seu filho e provável comitente de ambos os retratos, pretende imortalizá-lo, decerto pela maior nobreza deste ofício e por suas afinidades com a arquitetura (veja-se a respeito o texto referente ao retrato de Giuliano da Sangallo). A partitura exibida na base do retrato não é figurada em perspectiva e tem a clara função de registrar uma composição polifônica instrumental (não-identificada), talvez de autoria do próprio retratado.

Foi notado o parentesco entre a construção da fisionomia de Francesco e as experiências de Leonardo no que se refere à tipificação fisiognomônica da velhice. Piero di Cosimo interpreta-as, contudo, em um sentido dignificante e, em todo o caso, de modo mais benevolente para com seu modelo, cuja fisionomia pouco ou nada conserva das cruéis notações de Leonardo.

O chapéu de Francesco é em si um momento excepcional da obra, seja pelo esplendor de sua cor, seja pela força com que impõe a caracterização da personagem, seja ainda por ser um tour de force de claro-escuro sobre um objeto informe, capaz de lembrar o Homem com turbante (Autoretrato?) de Jan van Eyck (1433) da National Gallery de Londres.

O edifício ao fundo à esquerda seria, segundo Borsi, a igreja de S. Stefano in Rotondo, restaurada por Leon Battista Alberti e, sucessivamente por Bernardo Rossellino, um dos modelos mais prestigiosos da arquitetura páleo-cristã, muito estudado por Giuliano da Sangallo. O jogo entre a partitura e a arquitetura modelar de S. Stefano in Rotondo, em plano central, não será talvez sem ressonâncias simbólicas destinadas a sugerir filiações e correspondências entre as duas artes.

Luiz Marques
19/10/2010

Bibliografia
1976 – M. Bacci, L´Opera Completa di Piero di Cosimo, Milão, p. 93
1989 – S. Borsi, F. Quinterio, S. Vasic Vatovec, in S. Danesi Squarzina, Maestri fiorentini nei cantieri romani del Quattrocento, Roma.
1996 – A. Forlani Tempesti, E. Capretti, Piero di Cosimo. Paris, p. 124

Artista

Piero di Cosimo

Data

1501/ 1504c.

Local

Amsterdam, Rijksmuseum

Medidas

47,5 x 33,5 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C3 - Artistas e Autoretratos

Autor

Luiz Marques

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