Retrato de Caterina Cornaro, Rainha de Chipre

Registro inventarial: inv. n. 101

No canto superior pende uma placa em trompe-l´oeil,
com a inscrição:

Corneliae Genus Nomen Fero / Virginis quam Syna sepelit.
/ Venetus filiam me vocat se / Natus Cyprusq[ue] servit
novem / Regnor[um] sedes quanta sim / vides, sed Bellini
manus / Gentilis maior, quae me tam / Brevi expressit
tabella

“Da gens Cornelia trago o nome da virgem sepultada no Sinai.
O Senado de Veneza chama-me filha. E Chipre, sede de nove
reinos, serve-me. Vedes quão grande sou, mas ainda maior é a
mão de Gentile Bellini, que me captou em tão pequeno
quadro”.

Os Cornaro dão a Veneza quatro Doges e nove cardeais, além
de serem comitentes de grandíssimos artistas. Para seu
palácio em Pádua, Alvise Corner ou Cornaro (1484-1566),
imortalizado no retrato de Tintoretto no Palazzo Pitti,
encomendou a Giovanni Maria Falconetto (1468-1535) a
Loggia e Odeo Cornaro, introduzndo na cidade
conceitos vitruvianos e uma das primeiras imitações da
frons scenae. Giorgio Vasari acrescenta que
Falconetto:

Fece […] due bellissimi disegni di sepolture per casa
Cornara, le quali dovevano farsi in Vinezia in San
Salvadore, l´una per la reina di Cipri di detta casa
Cornara, e l´altra per Marco Cornaro cardinale, che fu il
primo che di quella famiglia fusse di cotale dignità
onorato.

“Fez dois belíssimos desenhos de sepulturas para a Casa
Cornaro, que deviam se construir na igreja de San Salvadore
em Veneza, uma para a rainha de Chipre dessa casa Cornaro, e
outra para Marco Cornaro cardeal, o primeiro daquela família
a ser honrado com tal dignidade”

Os Cornaro empenharam ainda artistas como Andrea Palladio
(Villa Cornaro), Jacopo Sansovino (Ca´ Cornaro della Ca´
Grande) e Gian Lorenzo Bernini (“Extase de S. Teresa
d´Ávila” em Roma, S. Maria della Vittoria).

Segundo Vasari, já Jacopo Bellini, pai de Gentile e de
Giovanni, havia pintado, com a ajuda dos filhos, um primeiro
retrato de Caterina Cornaro:

Le prime cose che diedero fama a Iacopo furono il
ritratto di Giorgio Cornaro e di Caterina reina di Cipri,
una tavola che egli mandò a Verona

“As primeiras obras que deram fama a Iacopo foram o retrato
de Giorgio Cornaro e de Caterina, rainha de Chipre, um
quadro que ele enviou a Verona”.

Fiha de Marco di Giorgio e de Fiorenza di Nicolò Crispo,
duquesa de Nasso, neta por parte de mãe de João IV Comneno,
imperador de Trebisonda, e aparentada às casas reinantes de
Costantinopla e da Pérsia, Caterina (1454-1510) é figura
central na família Cornaro, os quais reivindicavam a
ascendência da gens Cornelia, baseados evidentemente na
assonância Cornelia / Corner. Ícone do esplendor de Veneza,
foi muito retratada em seu tempo, convertendo-se no século
XIX num mito romântico, celebrado nas “cenas históricas” de
cunho acadêmico pintadas por Hans Makart (1840-1884),
Jacques Clément Wagrez (1846?-1908), entre outros.

Em 1472, Catarina casa-se com Giacomo II Lusignan, que
usurpara da irmã o trono de Chipre, trono que ela tenta
assumir sozinha após a morte deste (1473). Dada a
importância comercial e geopolítica de Chipre, ameaçada pelo
expansionismo turco e pelas pretensões aragonesas, Caterina
deve em 1489 entregar seu reino ao controle direto do Senado
de Veneza, que permite à ex-rainha manter uma pequena corte
régia em terra ferma, em Asolo, perto de Treviso, com
o título de “rejna de Jerusalem Cypri et Armeniae”. O Senado
não permite, contudo, que se case de novo, o que explicaria
talvez a referência à “virgem sepultada no Sinai”.

Na brilhante corte de Asolo trabalham Francesco Grazioli,
Andrea da Murano, Gerolamo da Treviso e talvez o jovem
Giorgione. Em seu castelo, hospedam-se Pandolfo Malatesta,
Guidobaldo e Elisabetta de Urbino, Eleonora d´Aragona,
Isabella d´Este e Beatrice Sforza. Aí, Pietro Bembo situa,
em 1495, a cena de seu primeiro e afortunado diálogo sobre o
amor intitulado Gli Asolani, redigido a partir de
1497.

Retratista oficial dos Doges desde 1474, Gentile Bellini
(1429c.-1507) retrata Caterina em três quartos e a
representa até a cintura, sem contudo incluir as mãos nesse
inusual enquadramento. Em sua fisionomia não transparece
qualquer emoção ou expressão fisionômica.

Sua cabeça é coroada e coberta por uma espécie de turbante,
além de velada por um duplo véu. Adornam sua coroa e sua
túnica (camora) numerosas pedras preciosas. Suntuosos
colares e brincos de pérolas completam sua paramentação, não
isenta de orientalismos, provavelmente alusivos à sua
condição de ex-rainha do Chipre.

Não deixa de surpreender, enfim, a ousadia com que Gentile
Bellini situa-se, na inscrição, acima da própria retratada.

Luiz Marques
13/05/2012

Bibliografia:
1979 – F. Colasanti, “Caterina Cornaro”. DBI, 22, ad vocem.
2011 – D. Korbacher, in K. Christiansen, S. Weppelmann, The
Renaissance Portrait. From Donatello to Bellini. Catálogo da
exposição, New York, The Metropolitan Museum of Art, pp.
364-365.

Artista

BELLINI, Gentile

Data

1500c.

Local

Budapest, Szépmuvészeti Múzeum

Medidas

63 x 49 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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