Tobias devolve a vista ao pai

Registro inventarial: inv. 1910

A obra pertence ao tesouro real português e é trazida ao
Brasil com a vinda da família real em 1808. Nos inventários
da Academia Imperial era atribuída a Ludovico Carracci.

A iconografia vétero-testamentária baseia-se em Tobias, 11,
13-15. Tobias de retorno de uma longa viagem, durante a qual
fora guiado pelo anjo Rafael, devolve a vista ao pai tocando
seus olhos com um peixe dotado de poderes taumatúrgicos. A
cena mostra o momento em que Tobias, secundado pelo anjo,
devolve a vista ao pai, Tobit, para o espanto deste e da
serva. Para um breve resumo do texto bíblico, veja-se o
retábulo de Andrea del Sarto, “O Arcanjo Rafael entre S.
Leonardo, o jovem Tobias e o doador”, em Viena,
Kunsthistorisches Museum:

http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=2241

Em comunicações pessoais a L. Martins Costa, em 1954,
Federico Zeri e Ferdinando Bologna Recusando a tradicional
e despropositada atribuição a Carraci, situam em Florença o
estilo da obra, o que é reiterado separadamente por Michela
Laclotte (C.O. 1989).

Na realidade, é possível atribuí-la sem dificuldade a
Coccapani pois na Coleção Piero Bigongiari, em Florença, há
uma réplica da obra, publicada em 1976 no repertório de G.
Cantelli. É de grande interesse a análise da principal
diferença entre as duas réplicas: a passagem da composição
vertical (Col. Bigongiari) à horizontal (MNBA).

A mudança de formato em quadros de dimensões semelhantes não
se faz sem dificuldades, adotando-se aqui a solução mais
complexa de uma mudança sutil na altura da cena, o que
implica em um reenquadramento geral e uma redefinição
completa da perspectiva.

A mudança de ponto de vista determina o redesenhamento
magistral da pequena bandeja e do copo. Registre-se também o
dilatamento lateral da composição, no MNBA, permitindo uma
leve reacomodação dos personagens, sobretudo à esquerda, com
efeitos de maior monumentalidade.

Quanto à gama cromática, a comparação com a foto publicada
em Bigongiari (1982) revela a mesma riqueza de partidos, com
a utilização de amplas superfícies de cor, contrastantes
entre os tons castanho-ocres (de matriz caravaggesca) e os
rosa-coral das vestes do filho de Tobias. A datação deve
seguir a proposta por Cantelli para a réplica Bigongiari.

Um dos pintores a participar em Florença da equipe de
pintores engajados na decoração da Casa Buonarroti – em
particular com seu “Michelangelo, sobre as nuvens, coroado
pelas alegorias da Pintura, Escultura, Poesia e Arquitetura”
(1615-17) – Sigismondo Coccapani (Florença, 1583-1643) é
aluno de Ludovico Cardi, il Cigoli, com quem segue para Roma
em 1610, como ajudante na decoração a afresco da cúpula da
Capela Paolina na basílica de Santa Maria Maggiore.

Sua estada na cidade, embora breve (1610-1612), é fecunda,
já que é deste período que Coccapani herda um naturalismo de
matriz caravaggesca e estabelece contato com outros pintores
do ateliê de Cigoli. A composição deste Tobias dá forte
testemunho do impacto sobre o pintor florentino da lição de
Caravaggio, que acabara de morrer.

Em 1612, Coccapani está de volta a Florença, e nesta região,
viria a trabalhar em Lucca, S. Ponziano e em Siena, onde
atua como arquiteto da catedral.

Além de pintor, Coccapani interessava-se por várias áreas do
conhecimento, como a hidráulica, a literatura e o ocultismo.
Sobre hidráulica escreve o Trattato del modo di ridurre
il fiume di Arno in canale
, que, segundo Giovanni
Battista Clemente Nelli (Vita e commercio letterario di
Galileo Galilei: nobile e patrizio fiorentino
, 1793, p.
409) obteve o aval de Galileo Galilei (il quale nella
maggior parte l´approvò
).

Luiz Marques
18/11/2011

Bibliografia:
1681 – F. Baldinucci, Notizie dei Professori del Disegno da
Cimabue in qua. Ed. P. Barocchi e A. Boschetto. Florença, 7
volumes, 1974-1975.
1976 – G. Cantelli, “Per Sigismondo Coccapani ´celebre
pittore fiorentino´ nominato il maestro del disegno”.
Prospettiva, 7, pp. 26-38.
1982 – F. Sricchia Santoro, “Sigismondo Coccapani”.
Dizionario Biografico degli Italiani, 26, ad vocem.
1983 – G. Cantelli, Repertorio della Pittura Fiorentina del
Seicento. Fiesole: Opus Libri, p. 46.
1989 – E. Acanfora, “Sigismondo Coccapani, disegnatore e
trattatista”. Paragone, 477, pp. 71-99.
1990 – R. Contini, “Sulle spartizioni del Coccapani:
Alessandro Rosi e Luciano Borzone”. Paradigma, 9, Studi per
Piero Bigongiari in onore dei suoi 75 anni. Aos cuidados de
M.C. Papini, Florença, pp. 141-58.
1992 – L. Marques, Pintura Italiana Anterior ao Século XIX
no Museu Nacional de Belas Artes. São Paulo: Área Editorial,
pp. 57-61.

Artista

COCCAPANI, Sigismondo

Data

1640c.

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

116 x 144 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

570 - Tobias

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *