Alegoria da Redenção

Desde o século XI, com mais intensidade, porém, ao longo dos séculos XIII e XIV, as práticas cristãs enfatizaram a Paixão de Cristo e, especialmente, Seu sofrimento durante a crucificação.

Para o Cristianismo a encarnação de Cristo é o fato fundamental, mas ele só ganha dimensão plena com Seu sacrifício na cruz. Nesse período, Ele se tornaria cada vez mais o Cristo da Paixão e do sofrimento (o que, segundo Le Goff, explicaria o desenvolvimento da iconografia da Pietà e do Ecce Homo).

Essa ênfase foi adaptada à iconografia do Juízo final, em particular aos modos de figuração do Cristo que, de Senhor Onipotente – o Cristo em Majestade que vem para julgar os vivos e os mortos -, passou a ser representado como sofredor, parcialmente desnudo, mostrando os estigmas e cercado pelas Arma Christi, trazidas em muitos exemplos à cena por anjos.

Assim sendo, a Paixão de Cristo, ainda que não seja representada, é claramente evocada não apenas pelas insígnias de seu martírio, sofrido para a remissão dos pecados dos homens, mas especialmente pelo Cristo mesmo que, em glória, apresenta ao fiel os estigmas, marcas inequívocas de Seu sacrifício pela humanidade. Não por acaso, em diversos painéis italianos a partir do século XIII os estigmas são representados sangrando, aludindo dessa forma claramente ao sangue derramado na cruz para a salvação dos homens.

A Paixão de Cristo, portanto, tem relação direta – teológica e iconográfica – com a representação do Juízo final, uma vez que o fato de ter morrido por toda a humanidade explica a presença do Cristo como juiz dessa mesma humanidade no fim dos tempos.

Uma das pinturas que provavelmente melhor indicam a relação histórica que vai desde a criação do homem até o Juízo final é o painel Alegoria da Redenção, de Ambrogio Lorenzetti, infelizmente em péssimo estado de conservação, o que impede uma leitura adequada mesmo por meio do exame direto da pintura.

O painel provavelmente seria o estudo para um afresco não executado. De acordo com Chiara Frugoni, a ideia de um esboço seria reforçada pelo fato de que a pintura apresenta cartigli deixados em branco, o que faz supor que, na imagem finalizada, inscrições seriam incluídas.

À esquerda no painel estão as cenas da Criação, do Pecado original e da Expulsão dos progenitores. Junto a Adão e Eva expulsos voa a figura negra da Morte, que segura nas mãos sua foice. Essa criatura, com suas asas e foice, recorda a figura da Morte pintada por Buonamico Buffalmacco no afresco do Trionfo della Morte, executado por volta de 1336 no Camposanto de Pisa.

Ao centro, acima de uma pilha de cadáveres – cuja solução compositiva também se assemelha à de Buffalmacco no mesmo afresco – está o Cristo crucificado. E, acima de todos, está novamente a Morte, grande, negra e ameaçadora. Como escreve Frugoni, esta é uma “extraordinária concepção, visto que a Morte não triunfa somente sobre o monte de cadáveres que funciona como pedestal da cruz, mas sobre o Redentor”.

Redentor que, entretanto, venceu esta mesma Morte ao ressuscitar no terceiro dia. E, por tê-la vencido, retornará no último dia para julgar todos os homens, e acolher a parcela da humanidade arrependida de seus pecados, conforme é mostrado na última cena do painel, à extrema direita – o próprio julgamento final, ainda que de modo simplificado: além do Cristo juiz, há somente dois anjos trombeteiros ao seu redor, a Virgem e São João Batista formando o grupo da Deesis, a apresentação da cruz do martírio logo abaixo do Cristo e, aparentemente, um grupo de condenados sendo levados ao Inferno.

Tamara Quírico
28/05/2011

Bibliografia:
1988 – C. Frugoni, “Altri luoghi, cercando il paradiso (il ciclo di Buffalmacco nel Camposanto di Pisa e la committenza domenicana)”. In: Annali della Scuola Normale Superiore di Pisa. Série III, vol. XVIII, n.º 4. Pisa
2003 – J. Le Goff, Le Dieu du Moyen Âge. Entretiens avec Jean-Luc Pouthier. Paris: Bayard
2009 – T. Quírico, Inferno e Paradiso. Dante, Giotto e as representações do Juízo final na pintura toscana do século XIV (tese de doutorado). Rio de Janeiro: Programa de Pós-graduação em História Social/ UFRJ

Artista

LORENZETTI, Ambrogio

Data

1345c.

Local

Siena, Pinacoteca Nazionale

Medidas

desconhecidas

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

OCIDENTE MEDIEVAL

Index Iconografico

749 - Alegorias da Graça, da Redenção, da Salvação; 610 - Crucificação e Imagens do Gólgota; 690 - Juízo Final

Autor

Luiz Marques

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