La Scapiliata (A desgrenhada)

A primeira menção ao título atual dessa obra inacabada de Leonardo da Vinci (1452-1519) comparece no Inventario dei quadri dei Gonzaga, de 1627, número 343:

Un quadro dipinto d´una donna scapiliata, bozzata, con cornici di violino, opera di Leonardo da Vinci.

Mas não é seguro que esta descrição se refira à obra atualmente na Galleria Nazionale de Parma, e esta é apenas uma das incertezas que envolvem esta obra.

Considerada por Corrado Ricci (1896) um falso e durante muito tempo exposta como de um artista anônimo pertencente à “escola de Leonardo”, a Scapiliata foi ardentemente defendida por Adolfo Venturi, Quintavalle e Carlo Pedretti, segundo os quais haveria uma boa probabilidade de que Leonardo a tenha pintado no âmbito de suas relações com os Gonzaga e particularmente com Isabella d´Este, esposa de Francesco II, marquês de Mantua.

Em particular, Pedretti pensa que se trata da obra que Isabella d´Este tentou, em vão, obter do artista em substituição de um prometido retrato, cujo espetacular modelo*, hoje no Louvre, Leonardo havia executado em sua estada em Mântua entre novembro de 1499 e fevereiro de 1500.

De fato, em uma carta de 27 de março de 1521, a Fra Pietro da Novellara, Vigário-Geral dos Carmelitas de Florença, Isabella d´Este pede-lhe que obtenha de Leonardo um quadretto de la Madonna devoto e dolce come è il suo naturale.

Outras hipóteses contudo foram avançadas a respeito das circunstâncias que cercam o nascimento desta obra. Entre elas, pode-se lembrar a de Mario Mascetti e Ernesto Solari, segundo os quais a Scapiliata poderia ser um estudo para o rosto de uma Virgem de uma Sagrada Família, de Leonardo, pintada por volta de 1500, e documentada em uma xilogravura conservada na Raccolta Civica Bertarelli de Milão.

A obra é considerada em geral perdida e conhecida em diversas versões de artistas do círculo de Leonardo em Milão (Marco d´Oggiono, Bernardino Luini, Andrea Solario, Giampietrino, Salaino e Melzi). Mascetti e Solari propõem que a versão da igreja de Lipomo (Como) poderia ser a versão autógrafa de Leonardo, obra na qual o semblante da Virgem
trova sorprendenti somiglianze con il misterioso volto della Scapiliata (tem surpreendentes semelhanças com o misterioso rosto da Scapiliata).

A fisionomia da figura feminina parece, de qualquer modo, próxima de uma cabeça ideal de uma Madona e a suavíssima flexão de sua cabeça em um quasi che ´n profilo é típica das Madonas leonardianas dos anos milaneses.

Mas talvez o que mais seduza nesta obra é o fato de nela se realizar não apenas uma forma radical de seu sfumato, mas uma concepção propriamente leonardiana do inacabamento entendido como obra acabada.

Se ela se alinha do ponto de vista do caráter experimental de sua complexa técnica mista ao lado do “São Jerônimo” da Pinacoteca Vaticana e da “Adoração dos Magos” dos Uffizi, ela parece figurar, por outro lado, como um unicum na obra de Leonardo. Daniel Arasse [1997:311] nota agudamente que o quadro é à la fois très fini et inachevé.

Luiz Marques
16/02/2011

Bibliografia:
1919 – L. Beltrami, Documenti e memorie riguardanti la vita e le opere di Leonardo da Vinci in ordine cronologico. Milão: Fratelli Treves, doc. 106.
1983 – C. Pedretti, Leonardo e il leonardismo a Napoli e a Roma. Catálogo da exposição, Florença: Giunti Barbera Editore.
1997 – D. Arasse, Léonard de Vinci. Le rythme du monde. Paris: Hazan, pp. 311-313
2002 – M. Mascetti e E. Solari, La Sacra Famiglia di Lipomo
http://xoomer.virgilio.it/ernsolar/MUSEOLEONARDO/latesi1.htm
2003 – F. Viatte, in F. Viatte e V. Forcione, Léonard de Vinci. Dessins et manuscrits. Catálogo da exposição. Paris, Louvre, pp. 192-193

Artista

Leonardo da Vinci

Data

1501(?).

Local

Parma, Galleria Nazionale

Medidas

24,6 x 21 cm

Técnica

terra de Úmbria, realces de gouache

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1171 - Cabeças de caráter e estudos de fisiognomia

Autor

Luiz Marques

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