Plaqueta de marfim com cenas da vida de Paulo

“A fonte das três cenas da vida de Paulo representadas nesta
plaqueta da coleção Carrand conservada no Bargello de
Florença, são os Atos dos Apóstolos. A cena do registro
superior representa-o sentado sobre uma sella
curulis
, cadeira designativa do poder de diversos
magistraturas civis e religiosas em Roma antiga, tanto na
fase republicana quanto na imperial. O caráter magisterial
do gesto de sua mão direita indica uma disputatio
dentre as muitas descritas nos Atos.

O registro intermediário representa uma cena precisa
relatada nos Atos, 28: 3-6, cena conhecida como
Paulus a vipera illaesus. Após escapar de um
naufrágio, Paulo é arrojado na ilha de Malta, onde é
recolhido por nativos que o reaquecem perto de uma fogueira.
Sucede então a cena em questão: “”como Paulo apanhasse uma
braçada de gravetos e a lançasse ao fogo, uma víbora que
saiu por causa do calor, prendeu-se à sua mão. Quando os
nativos viram o animal suspenso de sua mão, disseram entre
si: ´Certamente este homem é assassino; acaba de escapar ao
mar e a Justiça [Dikê] não lhe permite viver´. Mas,
ele sacudiu o animal no fogo e não sofreu mal algum.
Esperavam vê-lo inchar, ou cair, de repente, morto. Depois
de esperaram muito tempo, ao verem que nada de anormal lhe
acontecia, mudaram de parecer e puseram-se a dizer que era
um deus””.

Trata-se, após os perdidos afrescos de S. Paolo fuori le
mura, da primeira representação conservada deste passo dos
Atos, que retornará no século XII em um afresco na
capela de Santo Anselmo na catedral de Canterbury
e novamente nos séculos XVI e XVII (Elsheimer, Martin de
Vos, Charles Poerson, etc.). A fonte textual exprime bem
quão difundida era no mundo romano a crença no poder
providencial de Dikê, divindade da Justiça.

Nesse contexto dos Atos, a cena alude, como se sabe, a uma
passagem de Marcos, 16:18 na qual Jesus ressuscitado outorga
aos discípulos o dom de operarem milagres: “”Estes são os
sinais que acompanharão aos que tiverem crido: em meu nome
expulsarão os demônios, falarão em novas línguas, pegarão em
serpentes, e se beberem algum veneno mortífero, nada
sofrerão; imporão as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão
curados””.

O registro inferior remete à continuação do relato de Paulo
em Malta, quando o herói dos Atos cura miraculosamente
alguns enfermos daquela ilha, o que não é, possivelmente,
sem relação com a mencionada passagem de Marcos.

Embora já posto em relação com ateliês de Constantinopla, os
elegantes relevos do presente marfim são em geral
considerados de origem romana, hipótese reforçada pelo tema
e pela provável presença de uma mesma cena nos mencionados
afrescos de S. Paolo fuori le mura, do século IV, perdidos
no terrível incêndio de 1823.

Luiz Marques
18/09/2011

Bibliografia
2006 – K. Haney, in A. Paolucci, Petros eni / Pietro è qui.
Catálogo da exposição, Vaticano, Braccio di Carlo Magno,
Edindustria, p. 208.”

Artista

Arte Romana

Data

400c.

Local

Florença, Museo Nazionale del Bargello

Medidas

29 x 6 x 12,7 cm

Técnica

marfim

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

ARTE PÁLEO-CRISTÃ

Index Iconografico

654 - Paulo; 654.18 - Paulo e a serpente de Malta

Autor

Luiz Marques

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