Separação das Ovelhas e dos Cabritos

“Localização inventarial: Rogers Fund, 1924,24.240

Sobre um fundo de árvores e arbustos, reminiscente sem
dúvida da poesia bucólica, vê-se um jovem pastor com barba,
sentado, entre oito ovelhas e cinco cabritos. Ele acaricia
com a mão direita a cabeça de uma ovelha, enquanto afasta,
com a outra, a cabeça de um cabrito.

Esculpido por volta de 300 sobre o tampo de um sarcófago – o
assim chamado Sarcófago Stroganoff – este relevo é a mais
antiga figuração conservada da cena do pastor que separa as
ovelhas e os cabritos (haedus), tal como se lê em um
terrível passo de Mateus 25,31-41:

Cum autem venerit Filius hominis in gloria sua, et omnes
angeli cum eo, tunc sedebit super thronum gloriae suae. 32
Et congregabuntur ante eum omnes gentes; et separabit eos ab
invicem, sicut pastor segregat oves ab haedis, 33 et statuet
oves quidem a dextris suis, haedos autem a sinistris. 34
Tunc dicet Rex his, qui a dextris eius erunt: “”Venite,
benedicti Patris mei; possidete paratum vobis regnum a
constitutione mundi. 35 Esurivi enim, et dedistis mihi
manducare; sitivi, et dedistis mihi bibere; hospes eram, et
collegistis me; 36 nudus, et operuistis me; infirmus, et
visitastis me; in carcere eram, et venistis ad me””. (…)

41 Tunc dicet et his, qui a sinistris erunt: “”Discedite a
me, maledicti, in ignem aeternum, qui praeparatus est
Diabolo et angelis eius””
.

“”Quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os
anjos com ele, então se sentará no trono de sua glória. E
serão reunidas em sua presença todas as nações e ele
separará os homens uns dos outros, como o pastor separa as
ovelhas dos cabritos, e porá as ovelhas à sua direita e os
cabritos à sua esquerda. Então dirá o rei aos que estiverem
à sua direita: ´Vinde, benditos de meu Pai, recebei por
herança o Reino preparado para vós desde a criação do mundo.
Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes
de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me
vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes me ver.
(…)

Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: ´Apartai-
vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado pelo
Diabo e por seus anjos. (…) E irão estes para o castigo
eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna´””.

À esquerda do Cristo, vê-se um scrinium, estante em
que se guardavam os papiros, possivelmente alusivo ao
registro das boas e más ações pelas quais os homens serão
julgados no fim dos tempos.

Em sintonia com imagens do século IV inspiradas no
Apocalipse de João ou em Apocalipses apócrifos e, em geral,
com o sentimento do fim do mundo, muito difundido nos
primeiros séculos, este tampo do Metropolitan oferece a
primeira visualização da parousia, do Adventus
Domini
, isto é, do retorno do Cristo como juiz, vale
dizer, do Juízo Final ou Dies irae, tema que, como se
sabe, ganhará o favor dos altares e das fachadas internas e
externas da igrejas entre os séculos XII a XVI, mas cuja
figuração direta não surge no Ocidente antes do século IX.

A separação das ovelhas e dos cabritos como figura da
separação judiciária, escatológica e soteriológica do gênero
humano pelo Cristo – que distinguirá no mundo o Bem e o Mal
– não surpreende num povo de pastores e é sabido que tal
metáfora encontra um eloquente precedente vétero-
testamentário em Ezequiel (34, 11-23), onde Iahweh proclama:
“”Eis que vou julgar entre ovelha e ovelha, entre carneiros e
bodes””.

Como fez notar Martin Zlatohlávek (2001), “”subjacente à
palavra profética se encontra a experiência dos pastores da
Palestina que fazem a triagem de seus rebanhos ao cair da
noite: as ovelhas brancas são deixadas ao relento durante a
noite, pois têm necessidade de ar fresco; os carneiros
negros são recolhidos no redil, pois suportam mal o frescor
noturno. Na cultura agrária da Palestina, a ovelha branca
era considerada como o símbolo do Bem e do útil, ao passo
que o carneiro negro ou o bode negro passava por ser o do
Mal, portador de forças demoníacas. Segundo o Antigo
Testamento (Levítico, 16), bodes e carneiros expiatórios são
carregados anualmente com os pecados do povo – sacrificados
ou expulsos no deserto – separados do resto do povo em um
rito de purificação. A parábola das ovelhas e dos bodes é
tão sucinta quanto clara e potentemente simbólica””.

De fato, ela conhecerá grande fortuna na iconografia cristã
até o século XII, sobretudo nas ilustrações dos manuscritos
do Evangelho segundo Mateus, tendendo a se eclipsar à medida
em que ganha favor a iconografia propriamente dita do Juízo
Final.

(continua no texto de comentário à imagem de detalhe)”

Artista

Arte Romana

Data

280/ 320c.

Local

New York, The Metropolitan Museum of Art

Medidas

40,6 x 237,7 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

ARTE PÁLEO-CRISTÃ

Index Iconografico

688B34 - Os Eleitos e os Réprobos; 606D36 - Separação das
ovelhas e dos cabritos; 690 - Juízo Final

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *