Retrato de D. João VI

A concepção do retrato real consolidou-se nos séculos XVII e XVIII na França. Ao pintar o retrato de Luís XIV (Louvre), Hyacinthe Rigaud criou um conjunto de atributos iconográficos utilizados posteriormente para a composição da retratística da realeza durante os séculos XVIII e XIX. A posição do trono, o cortinado e a grande coluna, a coroa depositada ao lado, o rei com seu manto em pose de três quartos são elementos que se tornaram essenciais para este tipo de retrato.

Jean-Baptiste Debret (1768-1848) certamente utilizou-os para compor o retrato de D. João VI, Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves depois da morte de D. Maria, em 1816. Nesta pequena tela, possivel estudo para um quadro maior, não realizado, D. João VI está representado de corpo inteiro, portando os trajes de realeza. O encosto real apresenta a coroa na cabeceira, e logo abaixo está o símbolo de seu nome “J VI”, rodeado de estrelas, e o símbolo da Casa de Bragança: a serpe com o brasão imperial no peito.

A real cadeira dourada e os trajes majestáticos revelam a imponência de seu reino, agora americano, que acabava de se instaurar na capital do Rio de Janeiro. D. João tem, sob o braço esquerdo, o chapéu imperial ornado de plumas brancas e brilhantes, segurando em uma das mãos a espada não desembainhada (contrária ao símbolo da luta e da conquista) em ouro e, na outra, o cetro que repousa sobre a mesa almofadada de veludo.

A coroa depositada ao lado remete tanto ao modelo de retratística de Rigaud quanto ao fato de que os reis de Portugal são somente aclamados e não coroados, respeitando a tradição e a lenda do desaparecimento de D. Sebastião, e com ele sua coroa, no século XVI na África, e de seu esperado retorno.

Ao relacionar o retrato de D. João VI a um modelo iconográfico do Antigo Regime, Debret aproxima o rei português dos monarcas absolutistas. Seu retrato inscreve-se, assim, na mesma tradição artística e política.

Diferente dos novos atributos criados para D. Pedro I em 1822, não há em D. João VI inovações políticas ou pictóricas, mas sim a aplicação de um modelo consolidado e, ao mesmo tempo, ultrapassado, tanto no sentido da iconografia quanto da política, que trazia ao Brasil, segundo Debret, “os abusos de uma velha corte”.

Elaine Dias
28/05/2011

1949 – J.-B. Debret, Viagem Pitoreca e Histórica ao Brasil. SP, Livraria Martins.
1999 – I.L. Carvalho Souza, Pátria Coroada. O Brasil como Corpo Político Autônomo 1780-1831. SP: Ed. da Unesp, 1999.

Artista

DEBRET, Jean-Baptiste

Data

1817

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

60 x 42 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

71 - PERÍODO COLONIAL NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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