Davi

“Na Vida de Michelangelo (1550), Giorgio Vasari descreve as circunstâncias que cercam a encomenda da colossal escultura e sua importância capital no âmbito do paragone (comparação/emulação) com os modelos antigos, tema central de sua biografia do artista:

Michelangelo fez então, num modelo de cera, para servir de emblema ao palácio, um Davi jovem com uma funda, de modo que, assim como defendera seu povo e o governara com justiça, assim também quem governava aquela cidade devia resolutamente defendê-la e justamente governá-la. (…) Quando enfim a escultura foi fixada e terminada, Michelangelo descobriu a e verdadeiramente esta obra suplantou todas as estátuas modernas e antigas, gregas ou latinas. Pode se dizer que nem o Marforio de Roma, nem o Tibre ou o Nilo do Belvedere ou os colossos de Montecavallo lhe são equiparáveis em nenhum aspecto, tal a medida e beleza e tal a felicidade com que a levou a termo. Pois nela mostram-se contornos de pernas belíssimas, articulações e esbelteza de flancos divinas; nem dantes se viu tão doce pose, nem graça que a ela se compare, nem pés, nem mãos, nem cabeça que com os membros tanto se harmonizem, com felicidade, artifício, paridade e desenho. E decerto quem a vê não deve cuidar em ver qualquer outra obra de escultura feita em nossos ou em outros tempos, por qualquer artista.

Vasari proclama no Davi uma “”suprema perfeição””. Trata-se de uma intuição crítica segundo a qual Michelangelo atinge aqui um momento culminante de sua carreira juvenil. Até agora, a virtù de Michelangelo ainda aparecia na análise vasariana à luz de uma prodigiosa precocidade, capaz de superar o desenho do mestre Ghirlandaio, de mostrar-se, com o Baco do Museo del Bargello, “”superior a qualquer moderno””, assim como com a Pietà de Roma: “”obra que não julgue escultor algum ou artista raro poder jamais igualar””. Confirmação indubitável dessa excelência era a recorrência com que Michelangelo desafiara, com suas “”contrafações”” do antigo (tal como o Cupido vendido a Raffaele Riario) a connoisseurship mais avançada. O que naturalmente não fazia senão reiterar a premissa de que a arte antiga permanecia o parâmetro insuperável a partir do qual se revelava a grandeza do jovem. Agora, como no ápice de um crescendo histórico de dois séculos e meio (1250 / 1500), o fenômeno Michelangelo mostra-se pela primeira vez, com o Davi, em sua plenitude. Pela primeira vez, com efeito, a escultura moderna ultrapassa, na construção histórica vasariana, a “”barreira”” da Antiguidade.

Luiz Marques
10/07/2010″

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1501/ 1504

Local

Florença, Galleria dell'Accademia

Medidas

410 cm

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

536 - Saul e Davi; 536.6 - O combate de Davi e Golias

Autor

Luiz Marques

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