Juízo Final

Após a morte de Hans Memling em 1494, Jan Provoost (ou Provost, 1465c. – 1529) ocupa em Bruges uma posição de indisputada liderança artística. A obra tem, de fato, caráter oficial, pois foi encomendada para decorar a Sala do Conselho do Stadhuis (Prefeitura) de Bruges.

Trata-se da última versão de uma série de ao menos três que Provoost pintou ao longo de 25 anos, sempre segundo composíções e iconografias muito diversas.

A primeira delas, com sua composição piramidal, data aproximadamente de 1500 e encontra-se no Kunsthalle de Hamburg. A segunda dataria de 1520c. e encontra-se no Institute of Art de Detroit. Esta terceira versão para o Stadhuis de Bruges é a única documentada.

Embora não se represente aqui o lírio da misericórdia, o Cristo não surge em impassível maestà (frontalidade), mas se volta compassivamente para os bem-aventurados.

O gesto de benevolência é significativo de uma tradição que fora colocada em causa desde os afrescos de Buffalmacco no Campo Santo de Pisa, de 1536c., onde o Cristo volta-se para os danados com expressão colérica, em alusão à passagem de Mateus 25, 41: “E então ele dirá aos que estiverem à esquerda: ´Andai-vos longe de mim, malditos, ao fogo eterno, preparado pelo Diabo e por seus anjos”. Como se sabe, a iconografia do Cristo do Juízo Final que se volta com expressão severa para os danados seria consagrada pelo Juízo Final de Michelangelo (1535-1541).

Provoost figura o Cristo no centro de um grande sol, seja em alusão à sua identificação joanina com a luz, seja como reflexo da emergência da nova cosmologia heliocêntrica. O problema se colocará e de modo mais agudo no Juízo Final de Michelangelo e, novamente, no de Giorgio Vasari, ainda inacabado quando de sua morte em 1574.

Na Deesis (O Cristo entre a Virgem e S. João Batista), a Virgem aparece, fato relativamente raro na iconografia do Juízo, com o seio à mostra, possível atributo de sua função intercessora.

Note-se a justaposição de elementos arquitetônicos góticos e clássicos à esquerda da composição, com a porta do céu figurada como um portal de igreja gótica e, no primeiro plano à esquerda, um elemento arquitetônico enigmático em mármore com volutas e formas aproximadamente clássicas.

À direita, na entrada do Inferno, alguns dos réprobos são membros do clero, elemento tradicional na iconografia do Juízo Final. Segundo informa Els Vermandere, os maus clérigos foram repintados por Pieter Pourbus em 1550, em conformidade com o édito de Carlos V, proibindo representações desrespeitosas do clero, no contexto da guerra de propaganda entre católicos e reformistas, então no auge de sua virulência.

Luiz Marques
26/07/2010

Bibliografia
1996 – E. Vermandere, Jan Provoost, The Dictionary of Art Grove, vol. 25, ad vocem

Artista

PROVOOST, Jan

Data

1525

Local

Bruges, Groeninge Museum

Medidas

145 x 169 cm

Técnica

Madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

690 - Juízo Final

Autor

Luiz Marques

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