Estudo para o Davi em bronze

Registro inventarial: inv. 714r.

Inscrição autógrafa: Davicte cholla fromba / e io
chollarcho / Michelagniolo

“Davi com a fronda e eu com o arco / Michelangelo”.

O desenho mostra um Davi em diagonal com a cabeça em perfil
e a funda na mão esquerda. A seus pés, a cabeça de Golias.
Um estudo do braço do colossal Davi de mármore, hoje na
Galleria dell´Accademia de Florença.

O desenho relaciona-se com o perdido “Davi” de bronze de
Michelangelo mencionado por Giorgio Vasari na “Vida de
Michelangelo” (1550):

E per la fama che per questo [Michelangnolo] acquistò
nella scultura, fece al sopradetto gonfalonieri un David di
bronzo bellissimo, il quale egli mandò in Francia
.

“E pela fama que graças a ela [Michelangelo] conquistou como
escultor, fez para o gonfaloniere [Piero Soderini] um
Davi em bronze, belíssimo, que ele mandou para a França”.

Ascanio Condivi (1553) desdobra erroneamente a notícia de
1550 em duas obras:

dopo il Gigante, ricercato da Piero Soderini suo grande
amico, gittò di bronze una statua grande al naturale, che fu
mandata in Francia, e similmente un David con Goliad
sotto

“após o Gigante, encomendado por Piero Soderini, seu grande
amigo, fundiu em bronze uma estátua em tamanho natural,
enviada à França; e igualmente um Davi com a cabeça de
Golias aos pés”.

A encomenda tem origem em uma personalidade importante da
diplomacia francesa, o então ministro de Luís XII, Pierre de
Rohan, maréchal de Gié (1451 1513), conhecido
amateur, que descera à Itália em 1494 com Carlos VIII,
hospedando-se, em Florença, no Palazzo Medici di Via Larga,
então desocupado.

Neste palácio, Pierre de Rohan pôde apreciar o “Davi” de
Donatello, logo convertido em símbolo das liberdades
republicanas e transferido para o Palazzo della Signoria
(hoje no Bargello).

Mais tarde, em 22 de junho de 1501, os embaixadores
florentinos em Lyon solicitam à Signoria, em nome de Pierre
de Rohan, que encomendassem uma cópia desse bronze, tarefa
que, em 12 de agosto de 1502, será confiada a Michelangelo.
A relação do Davi de bronze de Michelangelo com o de
Donatello é atestada por este desenho do Louvre, outrora
pertencente a Mariette.

O desenvolvimento moroso dos trabalhos está documentado na
carta de 31 de dezembro de 1502 aos exasperados embaixadores
florentinos de parte da Signoria, que lhes roga terem
paciência, pois:

come voi sapete, dalle cose de´ pictori e sculptori si
puó mal promettere cosa certa
.

“como sabeis, pouco se pode prometer de pintores e
escultores”.

Em carta de 19 de julho de 1503, desculpando-se ainda pela
demora no envio da obra, a Signoria procura justificar se:

no si puó, per la natura dell´uomo e la qualità della
cosa expedirla in pochi dí
.

“não se pode, pela natureza do homem e a qualidade da coisa,
expedi la em poucos dias”.

Até que, finalmente, Pierre de Rohan, entrementes agraciado
com o título de duque de Nemours, cai em desgraça, o que
acarreta seu ostracismo e consequente desinteresse pela obra
por parte da Signoria.

O segundo pretendente ao Davi é também francês. Trata-se do
tesoureiro régio Florimond Robertet, mencionado em uma carta
de Pier Soderini ao embaixador italiano Giovanni Ridolfi, de
30 de junho de 1508, pela qual se sabe que a estátua
permanece inacabada (“resta rozzo”) no ateliê de
Michelangelo, então em Roma a serviço do papa Júlio II.

A obra será terminada por Benedetto da Rovezzano,
provavelmente indicado, pelo próprio Michelangelo. Em fins
de 1508, ela é embarcada para a França, onde será exposta no
Château de Bury, aí gozando de grande prestígio, conforme
atesta o inventário de Florimond Robertet, pelo qual se sabe
também que a escultura trazia em seu pedestal os seguintes
versos atribuídos a Michelangelo e traduzidos por Ronsard:

Moy, David, en moins de trois pas
Que je fis devant tout le monde,
Je mis Goliath au trépas
D´un seul juste coup de ma fronde
.

(Eu, Davi, em menos de três passos / que fiz diante de todos
/ levei Golias à morte / com um justo golpe de minha
fronda).

Em meados do século XVII, a obra é transferida para o
Château de Villeroy, perto de Paris, perdendo-se em seguida
traço de seu paradeiro.

Não faltaram tentativas de identificação do bronze ou de seu
modelo, desde o século XIX. O ponto de partida mais seguro
para a identificação é este desenho preparatório do Louvre
inv. n. 714r.

Alessandro Parronchi propôs, num artigo já publicado em
1962, uma identificação do modelo com um bronze do Museo di
Capodimonte, em Nápoles, atribuído anteriormente a Antonio
Pollaiuolo por Adolfo Venturi) ou a Francesco di Giorgio
Martini por Pope-Hennessy.

Luiz Marques
07/02/2011

Bibliografia:
1962 – A. Parronchi, Opere giovanili di Michelangelo. 5
volumes, Florença: Olschki. Vol. I, p. 149.
2003 – P. Joannides, Inventaire Général des Dessins du
Louvre. Michel-Ange. Élèves et copistes. Paris: RMN, p. 68-
73.

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1501c.

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

264 x 185 mm

Técnica

pena e tinta marrom

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

538 - Davi; 536.8 - Davi com a cabeça de Golias

Autor

Luiz Marques

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