Retrato de Giuliano da Sangallo

O retrato de Giuliano da Sangallo (1445c.-1516), arquiteto e entalhador predileto de Lorenzo il Magnifico, sem dúvida o mais erudito e inovador arquiteto florentino de sua geração, foi pintado por Piero di Cosimo em pendant com o de seu pai, Francesco Giamberti* (1404-1480), também ele conservado no Rijksmuseum de Amsterdam. Testemunha-o Vasari que, na Vida de Piero di Cosimo, escreve:

Francesco [da Sangallo] ancora ha di mano di Piero (…) dua ritratti, l´uno di Giuliano suo padre, l´altro di Francesco Giamberti suo avolo, che paion vivi

“Francesco [da Sangallo] tem ainda da mão de Piero (…) dois retratos, um de Giuliano seu pai, outro de Francesco Giamberti seu avô, que parecem vivos”

Os dois retratos, de medidas idênticas, compunham um díptico, com as duas personagens que se fitam, sobre fundo de uma paisagem comum. A observação de Vasari segundo a qual os retratos “parecem vivos” acusa a impregnação da retratística flamenga, em especial na escolha de um plano muito aproximado das poses e no extraordinário “realismo” das fisionomias e dos pormenores. O interesse pelo retrato nórdico acusa-se ainda na paisagem “setentrional”, isenta de referências clássicas ou toscanas, e sobretudo no parapeito, recurso usual na pintura flamenga e cuja matriz remonta a Jan Van Eyck. Não por acaso os retratos foram atribuídos até o século XIX a Dürer e a Lucas de Leyden, respectivamente.

O retrato de Giuliano é o de um sexagenário, com os cabelos grisalhos, longos e desalinhados. Ele se faz representar em diagonal, pose típica da tradição flamenga, sem nenhuma pretensão a mimetizar a medalhística, com vestes e chapéu típicos de seu ofício e da vida cotidiana. O compasso e a pena sobre o parapeito são os atributos de uma profissão ostentada com orgulho, que tudo o mais no retrato reforça.

O contraponto entre estes atributos e a partitura no retrato de seu pai* é rico de alusões a uma dupla paternidade, pois assim como Giuliano é filho de Francesco, as proporções que definem as harmonias visuais (a assim chamada concinnitas) são filhas da música, na acepção pitagórica do termo.

Entre Leon Battista Alberti e Rafael, Pitágoras assumiu uma função cardinal ao fornecer à música e às artes visuais uma possibilidade de diálogo. No De re aedificatoria, IX,v, Leon Battista Alberti enfatiza esta relação de paternidade:

“Jamais me cansarei de repetir a respeito a conhecida sentença de Pitágoras: é absolutamente certo que a natureza nunca discorda de si mesma. Assim é. Ora, aqueles números que têm o poder de conferir aos sons a concinnitas, que soa tão agradável ao ouvido, são os mesmos que podem encher de admirável alegria os olhos e o nosso ânimo. É justamente portanto da música, que fez dos números objeto de profunda pesquisa (…) que receberemos todas as leis da delimitação”.

Pode-se colher no afresco da Escola de Atenas* de Rafael (1508-1509) esta mesma relação de derivação da arquitetura em relação à música no evidente paralelo entre os grupos de Pitágoras e o de Euclides (representado como Bramante) respectivamente à esquerda e à direita da composição.

Para além de uma galeria de retratos de família, o díptico de retratos de Giuliano da Sangallo e de seu pai encerra, portanto, todo um programa sobre a nobreza e sobretudo sobre as convergências entre as artes.

Luiz Marques
16/10/2010

Bibliografia
1976 – M. Bacci, L´Opera Completa di Piero di Cosimo, Milão, p. 93
1996 – A. Forlani Tempesti, E. Capretti, Piero di Cosimo. Paris, p. 124
2000 – L. Marques, Le origini della musica, in Dipingere la musica. Strumenti in posa nell´arte del Cinque e Seicento. Catálogo da exposição, Brescia, pp. 31-36.

Artista

Piero di Cosimo

Data

1501/ 1504

Local

Amsterdam, Rijksmuseum

Medidas

47,5 x 33,5 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C3 - Artistas e Autoretratos

Autor

Luiz Marques

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