Sem título da série:

O fotógrafo cubano Rogelio López Marín conhecido como Gory, iniciará sua relação com as artes plásticas a partir da pintura, completando seus estudos como designer gráfico com um Mestrado em História da Arte. Esta formação inicial do artista no campo da pintura é fundamental para a compreensão de múltiplos elementos que entretecem o complexo discurso que subjaz nas suas fotografias.
Nesta trilogia pertencente a série “Es sólo agua en la lágrima de un extraño”apresentada pela primeira vez em Cuba na IIª Bienal de Havana de 1986. Gory estabelece um diálogo com o receptor sobre o homem e sua realidade no contexto específico de Cuba, a partir da ideia de ausência empregando a técnica da fotomontagem. Fala por meio dos espaços abandonados, da emigração, do isolamento. Gory encontra seus primeiros referentes nas casas e hotéis abandonados pelos cubanos, nas grandes ondas migratórias que voltam a se repetir na década de 80. Os locais escolhidos foram marcados pelo percurso que os conduz de elementos privados a elementos públicos, tornando-se então novamente privados, pois o `público` pouco ou nada desfrutaria deles.
Nestas paisagens reconhecemos a poética da nostalgia, mas seu substrato descansa na crítica social ao governo cubano e às suas políticas voltadas para betar as viagens ao exterior. Apesar das cores brilhantes que conformam toda série, algumas das composições do artista supõem espaços físicos possíveis, a atmosfera das mesmas não é convidativa. Cada uma das escadas é um caminho reservado para um membro da família que se desintegrou na fuga.
A primeira imagem da trilogia à esquerda nos devolve à memória as obras de Atget que tanto impressionaram os surrealistas. Atget trouxe a documentação de uma Paris, de uma época, de uma sociedade com tudo o que ela representa, e que hoje não existe mais, como ele mesmo dissera. Gory documenta o vazio do espaço deixado, onde o momento escolhido é posterior ao de Atget. O francês nos falara a partir do ontem, Gory fala do hoje a partir da ausência. A água, em seu sentido dual, de criação e também de morte, é um ciclo que se fecha diante do espectador. A cor se faz homogênea, os limites entre a piscina e o mar desaparecem, a água toma conta de tudo, mostra sua força sobre os domínios do homem, enquanto um pedaço de terra parece ser engolido pelo mar e o céu, mostrando que o mundo de quem mora em uma Ilha acaba no mar, e o além é um mistério inescrutável.
Na segunda obra, ao centro, o artista nos mostra as escadas que surgirem a piscina, mas esta se desvanece ante nós. Novamente o limite se perde na água, desta vez um bosque está prestes a desaparecer nela. Conseguimos ver o fundo, os azulejos que formam o chão, tudo parece calmo e límpido, mas percebemos o perigo diante dessa aparente imobilidade. Novamente o homem se ausenta da composição, e, no entanto podemos associá-lo às árvores, a vida está neles. A metáfora toma corpo a água não é mais evocação da beleza cálida do Caribe, ela se transmuta em situação social, na política de um governo, cujo poder parece não ter limites. A água vai subindo devagar submetendo a liberdade dos galhos. O céu que podia se converter em um ponto de escape se empenha em fechar o ambiente, em oprimir o espectador.
A última imagem à direita, se fecha sobre a violência das rochas, onde cada caminho tem um futuro diferente.Finalmente a água está em calma, no entanto, este caminho não oferece saída, um muro se levanta entre a escada sob nossos pés e esse horizonte tão desejado.

Mónica Villares Ferrer, Mestre em História da Arte
22/05/2010.

Artista

LÓPEZ Marín, Rogelio (Gpry)

Data

1986, Cuba.

Local

Coleção Particular

Medidas

100 x 120 cm

Técnica

Fotografia

Suporte

Pintura

Tema

Natureza Paisagem e Arcádia

Período

O SÉCULO XX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL

Index Iconografico

1608 - O mar e as marinhas;1604 - Paisagem devastada

Autor

Luiz Marques

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