Dilúvio Universal. Detalhe

(continuação do texto que acompanha a imagem principal)

A arca de Noé foi considerada como símbolo da Igreja. Suas nove janelas de cada lado sugeriram a Frederick Hartt [1950:184] e Hartt, in Colalucci [1990:I, 236] a imagem de um paralelo teológico mais longínquo:

It has nine windows on each side, like the nine scenes on the ceiling, the nine letters of the hidden name of God.

O mesmo autor prossegue:

Although I cannot offer direct proof, I wonder, if the Flood does not contain a reference to the most terrible weapon of the Church, the interdict.

De seu lado, Edgar Wind [1950:418] retraça uma tradição mística para a qual o Dilúvio seria como uma prefiguração do batismo. Cameron Allen [1949/1972:227] comenta essa tradição desde o famoso afresco das catacumbas de Priscilla, do século II, em que Noé, estendendo as mãos para a colomba, aparece como um emblema do Cristo ressurrecto. E acrescenta:

Noah was always treated as one of the great precursors of the Saviour. Endless comparisons were made between the waters of the Flood and those of baptism, between the wood of the Ark and the wood of the Cross, and between the door in the Ark and the wound in Christ´s side.

O mesmo autor observa, entretanto, que em Michelangelo a representação da arca perde, pela primeira vez na história desta iconografia, sua posição central, em benefício de uma ênfase nos pecadores:

no painter before M. had dared to push the Ark to the rear of the scene and make the intense sufferings of the doomed the essential artistic focus.

Paola Barocchi (1962) transcreve e analisa uma passagem do segundo diálogo de Giovanni Andrea Gilio, acerca “degli errori de´ pittori circa l´istorie” [1564:111-13], em que se trata da verissimilhança e de seu poder de suscitar os afetos, questão de corte aristotélico e tridentino.

Indagam-se as persongens do diálogo sobre como Michelangelo melhor teria representado a nave de Noé: como “pittore istorico” ou, ao contrário, como “pittore misto”. Ao primeiro, é obrigatório “demonstrar a verdade”, sendo portanto vetada “a airosa (leggiadra) mistura de coisas verdadeiras e falsas e por vezes fabulosas”, concedidas naturalmente ao segundo.

Neste contexto, Pulidoro, personagem do diálogo, censura Michelangelo por pintar uma nave excessivamente desenvolvida e ornada para aqueles rudes tempos:

E più mi sarebbe piaciuto che Michelangiolo avesse messo l´ingegno in ritrovare un tale istrumento goffo e mal a

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1508/ 1509

Local

Vaticano, Capela Sistina

Medidas

280 x 570 cm

Técnica

Afresco

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

514 - Gênese; 514.36 - Dilúvio Universal e recesso das águas

Autor

Luiz Marques

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