Baco com Pequeno Sátiro

“Em Vida de Michelangelo, Giorgio Vasari escreve a respeito da progressiva afirmação do jovem Michelangelo (1475-1564) em Roma, aonde fora chamado por Raffaele Riario, em 1496:

“”As qualidades de Michelangelo chegaram então ao conhecimento de Iacopo Galli, fidalgo romano de grande engenho, que lhe encomendou um Cupido de mármore, de tamanho natural, ao lado de uma figura de Baco de dez palmos, com uma taça na mão direita e, na esquerda, uma pele de tigre e um cacho de uvas que um satirozinho tenta comer. Vê-se bem como Michelangelo procurou dar a essa figura maravilhosa articulação entre os membros e, particularmente, a esbelta juventude do homem e a carnação roliça da mulher, algo admirável, em que se mostrou superior a qualquer moderno que houvesse até então trabalhado””.

A descrição da obra por Vasari põe em relevo a ambiguidade inquietante do deus, que se exprime em sua androgenia: “”a esbelta juventude do homem e a carnação roliça da mulher”” e uma “”articulação maravilhosa de membros””. Trata-se de um momento antológico da écfrase vasariana. Paola Barocchi mostra como esta que é “”a mais importante leitura quinhentista do Baco de Michelangelo””, permanece, embora com doses diversas de compreensão, nas interpretações ulteriores.

A androgenia de Baco fora já advertida por Boccaccio que escreve em seu Genealogia deorum gentilium (V,25): “”os antigos representavam-no também com vestes femininas””. Vincenzo Cartari, Le imagini de i Dei de gli Antichi [1556/1996:389] detém-se nas fontes e razões desse travestimento:

“”Porfírio dizia, segundo Eusébio, que se colocavam chifres em Baco e o vestiam de mulher para mostrar que nas plantas há ambos os princípios, o do macho e o da fêmea””.

Ascanio Condivi [1553] salienta a respeito do Baco que sua “”forma e aspecto correspondem em tudo às descrições dos escritores antigos””. Entre as fontes detectadas, ressaltam:

(a) Plínio (Hist. Nat., XXXIV, 69 ou XXXVI, 20), que escreve sobre o Dioniso em bronze, periboetos (renomado), de Praxíteles. Michelangelo não poderia não se lembrar do Dioniso praxiteliano com o qual convivera cotidianamente no jardim de Lorenzo il Magnifico, hoje no Museo Archeologico de Nápoles, inv. 6318, conhecido, de resto, em diversas réplicas;

(b) Filóstrato, outra fonte importante, fixada ulteriormente no Imagini deli Dei de gli antichi de Vincenzo Cartari, de 1556.

(c) Segundo Bacci [1985:132], enfim, a fonte literária de Michelangelo seria o Hino Homérico a Dioniso (Hino VII), no qual o deus metamorfoseia-se em leão. A favor desse elemento homérico, deve-se lembrar que poucos anos antes fora dado a público por Demetrio Calcondilla, titular da cátedra de grego do Studio florentino, a editio princeps das Obras Completas de Homero [Florença: Damilas, 1488].

No que se refere à ebriedade, Bacci propõe uma contaminação das Metamorfoses (III, 511 773) de Ovídio e notadamente o verso 608: “”Ille mero somnoque gravis titubare videtur”” (Ele parece vacilar sob o peso do vinho e do sono), verso com o qual Baco adolescente faz sua aparição a Acetes, que se torna seu acólito.

A embriaguez do Baco, titubeante e risonho, corresponde a uma idéia precisa no século XV. Em uma carta de 1481, Marsilio Ficino, retomando o Fedro de Platão, considera que “”a ebriedade de Dioniso (…) penetra os secretos mistérios da divindade””. Ela foi, entretanto, alvo da recepção adversa da obra nos séculos XVIII e XIX – de Falconet e Canova a Shelley e D´Agincourt -, conforme se depreende da reconstituição da fortuna crítica da obra proposta por Paola Barocchi. Um exemplo tardio dessas reservas encontra-se em Heinrich Wölfflin [1891:29]. Chocado por sua sensualidade e pela recusa do contraposto clássico, substituído por uma desconcertante instabilidade, Wölfflin nega qualquer derivação da estatuária ou da mitografia antiga: “”a embriaguez em um jovem produz sempre um efeito brutal. Os Antigos sabiam disso e voltaram-se para uma diferente configuração do tipo do Baco””.

As relações com a estatuária antiga são, entretanto, inegáveis. Os atributos do deus, os cachos de uvas, a coroa de hera, a copa de vinho suspensa, a pele e cabeça de leão, o sátiro coadjuvante, o corpo nu, mole e roliço, a postura cambaleante, o estado de embriaguez, etc. – encontram-se em vários exemplares antigos.

Luiz Marques
22/07/2010″

Artista

Michelangelo Buonarroti

Data

1496/ 1497

Local

Florença, Museo Nazionale del Bargello

Medidas

203 cm (184 cm sem a base)

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

12Bac - BACO Diôniso, Liber

Autor

Luiz Marques

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