Retrato de Auguste Gabriel Godefroy (Jeune Écolier qui joue au toton)

“Registro inventarial: inv. n. 53

A versão conservada no Louvre deste retrato foi exposta no Salon de 1738 (n. 116) com o título Portrait du fils de M. Godefroy, joaillier, appliqué à voir tourner un toton.

Em L´Art du XVIIIe siècle (1881, I, p. 181), Edmond e Jules de Goncourt mencionam a obra nestes mesmos termos: “”O pequeno quadro representando o retrato do filho do Sr. Godefroy, joalheiro, aplicado a ver girar o pião””.

Segundo as pesquisas de Leprieur, Auguste-Gabriel, filho de Charles Godefroy, banqueiro e joalheiro, morto em 1748, era dez anos mais jovem que seu irmão Charles, que deveria se tornar mais tarde um entusiasta mecenas e colecionador. Ainda menino de 8 anos, ele é retratado por Jean Baptiste Massé em um desenho à sanguina de 1736, ao lado do irmão e do pai, na imponente biblioteca da família.

Seu irmão, Charles, posara já por volta de 1735 para o que é considerado como “”o primeiro retrato verdadeiro de Chardin”” (Conisbee 1985, p. 111). Nascido em 1728, ele se tornou um écuyer e controlador geral da Marinha. Grande amador de pintura, Auguste-Gabriel comprou vários quadros da coleção de seu pai, além de duas obras importantes de Watteau, hoje no Louvre (Rosenberg 1979, p. 11).

Em 1745, a obra encontrava-se na coleção do célebre amateur Chevalier de la Roque, que promovera Watteau e para quem provavelmente Chardin pintou em 1741 esta segunda versão, assinada e datada, do retrato de Auguste Gabriel, quatro anos após a primeira versão, destinada à família Godefroy e hoje conservada no Louvre.

Há pequenas variantes entre as duas obras como o diferente enquadramento do rolo de papel, que está incluído inteiramente na cena na primeira versão. Da análise de tais variantes, pode-se inferir que a gravura feita por François-Bernard Lépicié (1698-1715) em 1742 tem a versão do Masp por modelo. A gravura é citada no Mercure de France, em novembre de 1742, p. 2506.

Em 1979, Rosenberg nota a menção a três versões da obra já no século XVIII, além de duas cópias, uma apresentada na venda Marius Palme de 22 de Novembro de 1923 e a outra no Ashmolean Museum de Oxford.

As duas obras do Masp e do Louvre contribuíram grandemente para a redescoberta de Chardin no final do século XIX. Em 1867, ambas aparecem em uma pequena exposição em Versalhes sendo recebidas com entusiasmo pela crítica. Trinta anos depois, foram qualificadas como “”petits chefs-d´oeuvre”” por André Michel por ocasião da exposição “”Portraits de femmes et d´enfants””, em Paris, celebrizando-se enfim em 1907 na famosa exposição promovida pela Galerie Georges Petit, quando o Louvre adquire uma das versões.

A significação deste retrato, simultaneamente também uma natureza morta e uma cena de gênero, deve ser buscada nos límpidos alexandrinos apostos à gravura de Lépicié:

Dans les mains du Caprice auquel il s´abandonne,
L´Homme est un vrai Tôton qui tourne incessament;
Et souvent son destin dépend du mouvement,
Qu´en le faisant tourner la fortune lui donne
.

Conisbee associa apropriadamente esta iconografia à da Bolha de Sabão, muito difundida na pintura francesa do Setecentos. Outra associação possível é com as duas versões do “”Castelo de Cartas””, pintadas por Chardin em 1737, hoje na National Gallery de Londres e na de Washington.

Mas antes ainda de quaisquer conotações morais, à maneira de uma Vanitas amenizada, a cena em questão parece oferecer um lado de benevolente e bem humorada reprimenda à criança que, hipnotizada pelo pião, descura de seus estudos literários e artísticos, esquecidos na gaveta e em um canto da mesa.

Neste sentido, a iconografia dessa obra seria uma divertida e irônica variante do tema da educação infantil, muito em voga no século XVIII e recorrente inclusive em Chardin.

Luiz Marques
06/04/2011

Bibliografia:
1909 – P. Leprieur, “”Récentes acquisitions du Département des peintures au Musée du Louvre – 1907-1908 – Les portraits de Chardin””. Gazette des Beaux-Arts, XLI, pp. 135-156
1979 – P. Rosenberg, Chardin, 1699-1779. The Cleveland Museum and University Press.
1981 – P. Conisbee, Painting in eighteenth-century France. Oxford
1985 – P. Conisbee, Chardin. Paris: ACR Éditions
1988 – E. Camesasca, Trésors du Musée de São Paulo. De Raphael à Corot. Catálogo da exposição. Martigny. Fondation Pierre Gianadda, p. 57
1998 – L. Marques (org.), Catálogo do Museu de Arte de São Paulo. 4 volumes, vol. II, p. 38″

Artista

CHARDIN, Jean-Baptiste-Siméon

Data

1741

Local

São Paulo, Museu de Arte de São Paulo

Medidas

67 x 73 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Vida Social e Gênero

Período

SÉCULO XVIII

Index Iconografico

1428 - A Infância, a Adolescência, a Juventude; 1428edu - A educação e o mundo escolar; 1428jog - Jogos e brincadeiras infantis; 1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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