Mameluca

A Mameluca pintada por Albert Eckhout (1610-1666) representa
a mistura racial entre os nativos brasileiros e os europeus.
Nela, o dado estrangeiro não está apenas na vestimenta da
mulher ou em algum acessório usado por ela: o elemento
europeu encontra-se em sua genética. Nesta tela, Eckhout
celebra o encontro das culturas que se deu com a chegada dos
portugueses na América tropical, em especial, o encontro dos
holandeses com as mais variadas etnias indígenas que
habitavam o país.

Sendo assim, nada mais natural que essa representante da
miscigenação estivesse vestida, de modo a recobrir quase que
totalmente seu corpo. Mas mesmo recoberta, a sensualidade
está presente nas sutilezas das insinuações da mameluca: com
a mão esquerda, ela levanta levemente seu vestido, deixando a
mostra seus pés e uma parte da canela. No peito, um grande
decote desnuda seu colo.

Eckhout mostra-nos uma mulher vaidosa, por assim dizer. Seus
adornos são ricos: um par de brincos filigranados de ouro com
pérolas, um colar acompanhando o estilo dos brincos com
pequenos pingentes de pérolas pendendo sobre seu colo, uma
pulseira no punho direito em quatro voltas e um adorno na
cabeça, lembrando uma presilha adornada por um arranjo de
flores de laranjeira. A mesma riqueza acompanha as ilhoses
bordadas nos ombros do camisolão, de mangas bufantes e ricos
drapeados. Na mão direita, uma cesta com flores de maracujá,
de laranjeira, jasmim e algumas flores genéricas.

Sua postura lembra as poses adotadas pelas figuras humanas
utilizadas nas alegorias dos continentes que circulavam em
meados do século XVII. A Mameluca mostra-se como um modelo
que personifica sua etnia e suas características. Ao erguer
uma cesta com a mão direita, ela reproduz o gesto das
representantes dos quatro continentes (Europa, Ásia, África e
América), aproximando-se mais das alegorias da Europa e da
Ásia por sua vestimenta mais rebuscada.

Talvez isso esteja relacionado com a maior civilidade que
Eckhout atribuiu a ela em decorrência de sua procedência
européia. Ela tem a sensualidade exótica de sua matriz
indígena que povoa a mente dos europeus, ao mesmo tempo em
que herda destes os traços mais refinados e reservados.

Os elementos da paisagem ao seu redor alternam-se em tons ora
quentes, ora frios. Os cajus amarelados ou avermelhados do
alto do cajueiro sobre ela comunicam-se com os amarelos das
flores na cesta, ou com o laranja da flor da pacovira que
cresce aos pés do cajueiro. Sobre o chão, alguns cajus
maduros camuflam-se em pedras.

O casal de porquinhos-da-índia, no canto direito, poderia
simbolizar a união de raças distintas de uma mesma espécie,
conferindo um ar de docilidade condizente com o semblante
igualmente dócil da mameluca.

À esquerda, um pé de mamonas em forte tonalidade verde
dialoga com os tons de verde matizados com amarelo das
plantas à direita. As terras ao fundo parecem praticamente
intocadas, formadas por grandes áreas verde-claro e algumas
aglomerações vegetais de verde mais intenso.

Richard Santiago
02/07/2011

Bibliografia:
1990 – C. do P. Valladares, L. E. de Mello Filho. Albert
Eckhout – A presença da Holanda no Brasil, século XVII. Rio
de Janeiro: Edições Alumbramento.
1999 – Ana M. de Moraes Belluzzo. Imaginário do Novo Mundo,
vol. 1. (O Brasil dos Viajantes) São Paulo: Metalivros/
Fundação Emílio Odebrecht.
2002 – E. van den Boogaart. “A População do Brasil Holandês
retratada por Albert Eckhout, 1641-1643″. In ECKHOUT volta ao
Brasil 1644-2002. Nationalmuseet, Copenhagen, Denmark.
2002 – P. Mason. “Oito Grandes Quadros com Pessoas das Índias
Orientais e Ocidentais. A Montagem Maravilhosa de Albert
Eckhout”. In ECKHOUT volta ao Brasil 1644-2002.
Nationalmuseet, Copenhagen, Denmark.

Artista

ECKHOUT, Albert

Data

1641

Local

Copenhagen, Museu Nacional da Dinamarca

Medidas

269 x 170 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Ciência Ilustração científica e Etnografia

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1210 - Representações Etnográficas; 1210Ind - Indígenas e
outras etnias americanas

Autor

Master

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *