A Virgem com o Menino Jesus, S. Benedito e S. Quintino

Localização inventarial: inv. n. 116

Este monumental retábulo de Francesco Marmitta, proveniente
da igreja dos Agostiniani di San Quintino, de Parma, mostra
uma “Sacra Conversação” com a Virgem e o Menino Jesus sobre
um trono, sob uma arquitetura clássica que deixa
transparecer uma límpida paisagem ao fundo, entre os santos
Benedito e Quirino e dois anjos músicos.

Trata-se de uma das mais límpidas e serenas pinturas do
último Quatrocentos padano, em que se percebe apenas como
reminiscência a herança das inquietudes da Ferrara de Ercole
Roberti, cuja Sacra Conversação de Ravenna*, de 1480-81,
hoje na Pinacoteca di Brera, é uma incontornável referência
para esta.

A Virgem, imersa em devaneio e com semblante de recato,
paira no centro de uma loggia apoiada em pilares e
colunas perfeitamente simétricos, que deixam o olhar se
perder na transparência luminosa do céu e da paisagem. Sobre
os degraus do trono sentam-se dois anjos músicos, tocando
uma rebeca e um alaúde. No centro dos degraus, um medalhão à
antiga representa o Pecado Original e, mais abaixo, a
Entrada de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos, prelúdio
de sua crucificação. O advento do Cristo como ponto de
equilíbrio entre Queda e Sacrifício redentor toma aqui seu
mais pleno e didático sentido.

Ao contrário da Virgem, que tem os olhos abaixados, os
santos fitam intensamente o espectador. S. Benedito segura o
livro de sua Regra, enquanto S. Quintino mártir, endossa uma
estupenda armadura, talvez alusiva a seu estatuto de militar
romano.

A “Sacra Conversação” é uma representação da Virgem com o
Menino Jesus entre santos, tipologia de matriz vêneta que se
estende desde finais do século XV por toda a pintura
italiana. O gênero nasce, possivelmente, da fusão em um
espaço único em perspectiva dos diversos compartimentos em
que se encerravam os santos nos polípticos dos séculos XIII
e XIV. Seu nome associa-o, além disso, à tradição do drama
sacro, que ganha maior relevo textual e cênico a partir do
século XIV.

Em suas Vite di Valerio Vicentino, di Giovanni da Castel
Bolognese, dia Matteo dal Nasaro Veronese e d´altri
eccellenti intagliatori di camei e gioie
(1568), Giorgio
Vasari dedica algumas linhas a Francesco Marmitta, pintor,
iluminador e gravador de gemas, nascido por volta de 1460 e
ativo sobretudo em Parma, onde é documentado entre 1496 e
1504:

Fu ne´ tempi adietro in Parma il Marmita, il quale un
tempo attese alla pittura, poi si voltò allo intaglio, e fu
grandissimo imitatore degli antichi. Di costui si vedde
molte cose bellissime
.

“No passado, em Parma, viveu [Francesco] Marmitta, que se
dedicou de início à pintura, voltando-se em seguida para o
entalhe e foi grandíssimo imitador dos antigos. Dele se
vêem-se muitas coisas belíssimas”.

Embora não subsistam decorações de manuscritos com
iluminuras assinadas por ele, seu nome é mencionado como tal
nos versos do prefácio de um manuscrito de Petrarca,
conservado em Kassel, Landesbibliothek (Ms. Poet 4.6),
contendo os Canzoniere e os Trionfi. De
autoria de Jacobus Lilius, tais versos equiparam-no a Apeles
e a Lisipo.

Luiz Marques
24/11/2011

Bibliografia:
1978 – C. Ressort, Retables italiens du XIIIe au XVe siècle.
Catálogo da exposição, Paris, Louvre, p. 58.
1986 – J. Manca, “Ercole de´Roberti´s Garganelli Chapel
Frescoes: A Reconstruction and Analysis”. Zeitschrift für
Kunstgeschichte, 49, pp. 147-164.
1994 – D. Thiébaut, Musiques au Louvre, Paris, p. 66
1996 – T. Tolley, “Francesco Marmitta”. The Grove Dictionary
of Art, vol. 20, ad vocem.

Artista

MARMITTA, Francesco

Data

1500/ 1505

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

220 x 128 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

712A - A Virgem com o Menino Jesus e Santos. Sacra
Conversação; 727 - Anjos músicos; 806bene - S. Benedito;
806quint - S. Quintino

Autor

Luiz Marques

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