A Beata Ludovica Albertoni

A escultura Beata Ludovica Albertoni é uma das últimas obras de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680). Encontra-se sobre o altar da capela lateral dedicada a Sant’Anna, localizada no transepto da Igreja de San Francesco a Ripa, no Trastevere em Roma, onde se encontram os restos mortais da beata.

Ludovica Albertoni (1473-1533) foi uma religiosa nascida de uma nobre família italiana. Casada e mãe de três filhas, somente após ficar viúva e abrir mão de todos os seus bens adentra a Ordem Franciscana, em 1506. Sensibilizada pela miséria material e moral de Roma, a religiosa intensifica suas obras de caridade, sendo conhecida como “madre dei poveri e degli afflitti” (Cipriani, 1973, p. 51), chegando a ser considerada santa por muitos.

Bernini a esculpe a pedido do cardeal Paluzzo Albertoni Altieri, descendente da beata, que tinha interesses pessoais em construir-lhe um memorial, não apenas para saciar o culto popular que ali se formava, mas para demonstrar certa benevolência de sua família. Nela, o artista busca traduzir algumas das principais características atribuídas à vida da beata: a piedade e a plenitude de sentimentos ligados a um forte fervor religioso.

Ludovica, esculpida em mármore de Carrara, é representada deitada em seu leito de morte, um momento extático, comumente considerado como de uma morte mística. Ao representar sua agonia derradeira, a beata, cuja expressão facial e postura sugerem submissão e êxtase, acaba por ser imortalizada solitária e agonizante.

A escultura apresenta uma composição espacial elaborada de modo a ressaltá-la, dotando-a de certo caráter de superioridade, de um sublime capaz de aproximá-la ainda mais do ser divino. Deste modo, embora a religiosa, beatificada em 1671, ocupe ainda um espaço terreno, ela parece já pertencer a outro mundo, não se sentindo perturbada com a presença de seu observador (Perlove, 1995, p 15).

Seus olhos e boca semi-abertos parecem proferir um gemido padecente, sugerindo forte sensualidade e erotismo, embora seu corpo esteja quase totalmente recoberto. A cabeça inclina-se para trás, recostando-se sobre um travesseiro. Com as mãos sobre o corpo, contraídas contra os seios, aparenta oferecer seu coração num gesto de caridade. A movimentação de seu corpo, inclusive pelos joelhos que se dobram, e de suas vestes aludem a alguns segundos de vida, se contorcendo como se fosse animada por uma força invisível (Perlove, 1995, p 15), com os anjos a esperarem sua morte para enfim levá-la ao triunfo celeste.

Afirma-se que a escultura de Ludovica teria sido executada gratuitamente por Bernini após o artista ter sido criticado por polêmicas causadas por seu irmão, Luigi Bernini, acusado de sodomia. A obra Beata Ludovica Albertoni simboliza o ápice de um ideal religioso, o contato de um indivíduo que, embora tenha por algum tempo se dedicado a uma existência “carnal”, renunciou a tudo para viver plenamente a experiência religiosa.

Ana Cláudia Cermaria Soares da Silva
12/07/2011

Bibliografia:
1973 – L. Cipriani, Ludovica Albertoni: 1473-1533. Roma: Alouisius Liverzani.
1995 – S. K. Perlove, Bernini and the idealization of death: the Blessed Ludovica Albertoni and the Altieri Chapel. Pensilvania: The Pennsylvania State University Press.

Artista

BERNINI, Gian Lorenzo

Data

1671/ 1674

Local

Roma, S. Francesco a Ripa, Capela Altieri

Medidas

50 x 190 cm

Técnica

mármore de Carrara

Suporte

Escultura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

834 - Ascetismo, misticismo e êxtase; 1700B - Retratos Escultura; 1700B1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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