Moema

Moema é a índia que Diogo rejeita em Caramuru, poema épico do descobrimento da Bahia (1781). Sua presença é pequena na poesia, mas Moema acabou protagonizando seu episódio mais celebrado, no qual desaparece nas águas. A partir disso, se fortalece a união de Diogo e Paraguaçu, símbolo da nação renovada.

Victor Meirelles não pintou uma cena de Caramuru; escolheu retratar o que poderia ter ocorrido à Moema depois de “sorver-se n´água”: seu corpo aparece na praia, nu e inerte, imerso numa natureza evanecente, com a mão sobre o ventre, o braço estendido e as pernas juntas. Sua pose é delicada, mesmo artificial, o que é acentuado por dois elementos: um arranjo de penas central no quadro, cobrindo o sexo, e os cabelos negros, longos e ramificados, impressionantemente vivos.

Mais do que obedecer a obra literária, Meirelles integrou seu quadro à tradição pictórica de nus estendidos sobre paisagens naturais; nus míticos e idealizados, dormindo ou sem vida, inconscientes de sua exposição e, assim, viáveis ao olhar moralista. Acrescente-se que, sendo também uma indígena, sua nudez era condição natural, inocente e plausível, o que autorizou ainda mais a transposição à tela.

Entre Vênus e Ofélia, Moema é uma espécie de meio-termo, uma personagem que, na adaptação magistral de Meirelles, conciliou o gênero pictórico da mulher sobre as águas à busca pelo assunto pátrio, ambos apreciados em meados do século XIX.

Toda a concepção do quadro, incluindo o minúsculo navio no horizonte e os indígenas ao fundo, é criação de Meirelles, amparada em referências diversas que incluem desde sua obra-prima, A Primeira Missa no Brasil (1861), até a famosa A Balsa da Medusa (1819), de Géricault, copiada por Meirelles na década de 1850. No entanto, parte da crítica tomou Moema como plágio da Morte de Virgínia, de Isabey, torpe acusação. Moema alimentou-se generosamente de citações, em processo legítimo de imitatio, transformando-se ela mesma em poderosa fonte de citação.

Ao mesmo tempo, a obra de Meirelles abriu caminho a um tipo de representação do indígena, em grandes dimensões, que não se restringia a exaltar a nação, cujo exemplo maior em torno daqueles anos é a escultura de Chaves Pinheiro, Alegoria do Império Brasileiro (1872).

Moema não é uma alegoria, pois não possui os atributos que caracterizam uma obra deste gênero. Mas na época em que foi pintado, o quadro pode ter assumido diferentes significados, inclusive contraditórios. Podia aludir, por exemplo, ao que se acreditava ser a extinção de uma r

Artista

MEIRELLES DE LIMA, Victor

Data

1866

Local

São Paulo, Museu de Arte de São Paulo

Medidas

129 x 190 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Literatura Medieval Moderna e Contemporânea

Período

O SÉCULO XIX NA AMÉRICA HISPÂNICA E NO BRASIL (A PARTIR DE 1822)

Index Iconografico

18 - Poetas e Literatos; 1000Sant - Santa Rita Durão; 1000SaMo - Moema

Autor

Luiz Marques

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