Primavera. Detalhe 3: Vênus e Cupido

A pose de Vênus voltada para as Graças e seu gesto
demonstrativo, como que temperante dos ritmos da dança,
denotam que esta está posta sob seus auspícios.

A ideia de Vênus como deusa da moderação pode parecer
estranha, mas não é assim no Quatrocentos, observante de
Plutarco. Assim, Giovanni Pico della Mirandola define-a
fonte de “devidos temperamentos”, e chamou-a deusa da
concórdia e da harmonia:

“É bem sabido, escreve Plutarco em seu tratado Isis e Osiris
(Moralia, 370d-371a), que a Harmonia nasce da união de Vênus
e Marte, sendo este fero e litigante, e aquela generosa e
agradável (…) Empédocles chama a força eficaz do bem com
os nomes de amor e amizade. Platão, dissimulando e deixando
transparecer sua opinião em muitas passagens diversas, chama
por sua vez o primeiro destes dois princípios contrários o
Mesmo e o segundo, o Outro… Porque mista é a origem do
mundo, e a sua estrutura é formada de poderes contrários”.

O conceito de uma Vênus benéfica, pacífica e comedida foi um
dos paradoxos mais originais e estimulantes do
neo-platonismo. No tratado de Plotino III,v,4, traduzido com
o título De amore e comentado por Marsilio Ficino, há
uma passagem que parece aplicar-se à Primavera de
Botticelli, pois o contraste entre a placidez da sua
natureza e o caráter irriquieto do filho (Cupido) é definido
de um modo que pode explicar o contraste das atitudes na
pintura:

siquidem anima est mater Amoris, Vênus autem est anima,
Amor vero est actus animae

“Se na verdade a alma é a mãe do Amor, Vênus, por outro
lado, identifica-se com a alma e o Amor na verdade é o ato
ou a energia da alma”.

Vale dizer que Vênus mantém em suspensão ou em potência seus
poderes, sendo estes liberados pela volubilidade do Amor.

Há uma simetria, portanto, entre a progressão Zéfiro /
Cloris / Flora e a dança iniciática de Castitas. Mas esta
simetria não é absoluta, porque nesta dança perde-se muito
daquela vitalidade direta e explícita do ato que anima
Zéfiro e Cloris. A discordia concors entre as irmãs,
esta “harmonia na discórdia” é agora uma conjunção mais
espiritualizada, mais composta, mais decorosa, na forma como
Horácio a define em seu poema sobre a chegada da Primavera
(Odi, I,iv):

“Dissolve-se o áspero inverno com o grato aproximar-se da
primavera e de Zéfiro, e as secas quilhas (das naves)
escorregam pelos tri

Artista

BOTTICELLI, Sandro

Data

1482c.

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

203 x 314 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

104Prim - A Primavera; 12Ven - Vênus Afrodite; 130Gra - As
Graças Eufrosine, Tália e Áglae; 12Mer - Mercúrio Hermes;
10Venz - Zéfiro

Autor

Luiz Marques

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