Sarcófago Grande Ludovisi

O sarcófago Grande Ludovisi, descoberto em 1621 perto da
Porta Tiburtina e assim chamado por sua proveniência da
coleção Ludovisi, em Roma, é decorado em sua caixa com
relevos representando uma batalha.

No tampo, vêem-se, à esquerda, uma cena de submissão da
família de algum rei bárbaro sob o gesto pacificador
(restitutio pacis) do Imperador

Ao centro, abaixo de uma superfície reservada provavelmente
a uma inscrição, uma cena de lamentação com quatro
personagens é talvez reminiscente da prothesis, o
arcaico rito de lamentação do morto, presente na pintura
vascular grega do período Geométrico tardio I (770 a 750
a.C.). Vejam-se a respeito, por exemplo, as duas grandes
ânforas do Museu Arqueológico Nacional de Atenas:

inv. 18062: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=2735

e

inv. 804: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3215

À direita, uma figura feminina em meio-corpo não
identificada, sob uma parapetasma (tenda). Este
tampo, outrora conservado no Museu de Mainz, na Alemanha,
foi destruído em 1945, em um bombardeio aliado.

Trata-se do sarcófago de um dos filhos de Trajano Décio,
talvez Herênio Etrusco, morto com o pai na batalha de
Abrittus em junho de 251. Mas é mais provável que se trate
do filho menor do Imperador, Gaio Valente Hostiliano Méssio
Quinto, proclamado Augusto por Triboniano Galo em 251, mas
morto em seguida em decorrência da terrível peste de 252.

Herênio ou Hostiliano é retratado em batalha provavelmente
com os godos (haja vista as vestes), que mataram seu pai,
Trajano Décio, na batalha de Abrittus, em Dobruja, ao leste
da atual Romênia.

Extremamente denso de figuras e animado por um violento jogo
de luz e sombra devido ao uso intensivo do trápano, este
imenso relevo organiza-se em quatro estratos. Os dois
estratos superiores são dominados pelos soldados romanos e
os dois inferiores, pelos bárbaros, em vias de serem
vencidos. O gesto de exortação do Imperador sugere um
movimento de avanço das tropas romanas da esquerda para a
direita.

Atrás da cabeça da figura central do sarcófago, vê-se uma
serpente, e é imediata a associação da serpente com a figura
comumente figurada na base dos altares mitraicos. Mas se
compreenderia mal a posição da serpente neste sarcófago,
descontextualizada do preciso bestiário de tais altares.

Parece mais tentador identificar esta serpente com uma
aparição do pneuma do jovem Imperador no momento em
que deixa seu corpo. Com efeito, a imagem evoca um passo da
“Vida de Plotino”, por Porfírio (300c.), na qual o discípulo
afirma que no momento de sua morte:

“uma serpente passou sob o leito em que estava deitado e
desapareceu em uma fenda da parede. Desprendeu-se então de
Plotino seu pneuma“.

Anotando esta passagem em sua edição dessa biografia, Émile
Bréhier observa que a serpente aparece com frequência, no
âmbito da cultura alexandrina, no momento da morte,
associada que é ao deus serpente Agatodaemon. No que se
refere ao mundo romano, Marcel Meulder analisa a recorrência
de aparições da serpente como animal religiosum, na
maior parte das vezes anunciadora da morte, desde ao menos o
De divinatione de Cícero.

A cabeça do jovem imperador é ungida pela cruz de cinzas,
signo de sua pertinência à condição de soldado no âmbito do
mitraismo, conforme se lê em Tertuliano (De praescr.
haer.
, 40, 4). Em tais cultos, esta cruz designaria o
fogo e o sangue purificadores, sendo própria do mais elevado
dos nove graus de iniciação – justamente a iniciação do
miles – aos mistérios de Mitra.

Como nota Robert Turcan, os acólitos de Baco, de Isis e de
Attis traziam tatuada uma mesma marca, mas é sabido que os
dois filhos de Décio professavam o culto a Mitra. A tal
respeito, e em particular no que se refere às relações desse
signo com a cruz cristã nos séculos III e IV, vejam-se os
textos que acompanham a imagem maior deste sarcófago:

http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3477

e o retrato de um dos filhos de Décio, provavelmente
Hostiliano, nos Musei Capitolini em Roma:

http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3478

Luiz Marques
03/11/2011

Bibliografia:
1957 – H. von Heintze, Studien zu den Porträts des 3.
Jahrhunderts n. Chr. – Der Feldherr des grossen
Ludovisischen Schlachtsarkophages. RM, 64, pp. 69-91.
1973 – B. Andreae, Römische Kunst (1973), tradução ingl. The
Art of Rome, New York: Abrams, 1978, pp. 200-201
1992 – D. E.E. Kleiner, Roman Sculpture, Yale, pp. 206-208.
1993 – R. Turcan, Mithra et le Mithriacisme, Paris: Les
Belles Lettres, p. 87.
2005 – L. Marques, “Animula hospes comesque corporis. A
emergência da idéia de retrato ´interior´, de Adriano a
Galieno”. Revista Signum, Associação Brasileira de
Estudos Medievais, 7, pp. 129-163.

Artista

Arte Romana

Data

151/ 152

Local

Roma, Museo Nazionale Romano, Palazzo Altemps

Medidas

153 cm de altura

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

ARTE GRECO-ROMANA

Index Iconografico

430 - Iconografia funerária antiga; 430A - Cortejos e Cenas
de inumação, cremação ou lamentação; 432 - Sarcófagos e
outros relevos funerários; 432Bat - Sarcófagos com cenas de
batalhas

Autor

Luiz Marques

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