Retrato de Paulo III e de seus netos, Alessandro e Ottavio Farnese

Registro inventarial: inv. n. Q129

No centro da composição, vê-se o papa Paulo III, na idade de
77 anos. Último dentre os grandes papas do Renascimento, mas também o primeiro dentre os fautores da Reforma católica, Alessandro Farnese (1468-1549) teve Pomponio Leto por preceptor e passou parte de sua adolescência na corte de Lorenzo il Magnifico (1449-1492), após sua prisão e fuga do Castel Sant´Angelo e o exílio de Roma decretado por Inocêncio VIII.

Em 1489, retorna a Roma e é nomeado cardeal em 1493, aos 25 anos, graças à ascendência de sua irmã, Giulia, sobre o papa Alexandre VI Bórgia. Nesta condição, Rafael representa-o talvez três vezes, uma delas no afresco da Consignação dos Decretais, na Stanza della Segnatura e outra, nos mesmos anos 1509-1511, em outro retrato no mesmo museu de Capodimonte.

Eleito pontífice aos 66 anos, em 13 de outubro de 1534, a expectativa geral era que Paulo III não fosse capaz de um longo pontificado.

Inclinando-se em sua direção, Tiziano representa Ottavio Farnese (1524 – 1586), duque de Parma, Piacenza e Castro. Em 1538, Ottavio desposara Marguerita de Áustria, filha ilegítima de Carlos V e viúva do duque Alessandro de´ Medici (assassinado em 1537).

De pé, atrás do papa, vê-se o cardeal Alessandro Farnese (1520-1589), filho primogênito de Pier Luigi Farnese (1503-1547) e de Gerolama Orsini, e feito cardeal aos 14 anos pelo avô, logo ao início de seu pontificado em 1534. Trata-se de um dos mais magnificentes mecenas do século XVI, atividade que envolve a construção dos Orti Farnesiani, a descoberta e restauração dos celebérrimos Touro Farnese e Hércules Farnese e, graças à mediação de Giovanni della Casa, a vinda de Tiziano a Roma, em 1545-1546, ocasião em que encomenda ao mestre veneziano este que é um dos momentos mais elevados da retratística de todos os tempos.

Paulo III ambicionava para ambos os netos a continuidade dos Farnese, seja em âmbito eclesiástico (Alessandro), seja no de seus domínios seculares, em especial no ducado de Parma e Piacenza, recém-criado pelo papa. Ambos os projetos deviam permanecer inacabados, como o próprio retrato, que, contudo, ao dizer de Vasari, muita satisfez àqueles senhores.

Dentre as hipóteses que explicam o inacabamento do quadro, uma é a decisão de Tiziano de condicionar sua finição à nomeação do filho, Pomponio, a um cobiçado benefício eclesiástico, finalmente jamais obtido.

Outra hipótese seria o desgaste das relações de Paulo III com Carlos V, sogro de de Ottavio, o que levaria o papa a afastar-se de Ottavio e a reorientar sua proteção para outro neto, Orazio, inserido na corte de Francisco I, rei da França e prometido à Diana, filha ilegítima do herdeiro de Francisco I, o futuro Henrique II.

O retrato foi, assim, abandonado e nem sequer emoldurado, não suscitando mais a atenção de ninguém até que Van Dyck o descobre nos anos 1620 quando de sua visita à coleção Farnese em Roma, dele fazendo um estudo, hoje no British Museum.

O retrato de Tiziano condensa, na cavilosa articulação das três personagens, todo um capítulo da história da Razão de Estado na Europa do século XVI. A ofídica malícia que estas fisionomias ao mesmo tempo sugerem e encobrem é comparável apenas à das grandes personagens de Maquiavel e de Shakespeare.

Mas sobretudo este retrato permanece o mais audacioso, sinfônico e radical estudo de uma composição em vemelho na história da arte. Em grande medida, toda a pintura sucessiva, até o século XIX, que vier a ter a unidade tonal por elemento, dependerá deste insuperado modelo.

Luiz Marques
02/01/2011

Bibliografia
2006 – M. Utili, in N. Spinosa, Tiziano e il ritratto di corte da Raffaello ai Carracci. Catálogo da exposição, Nápoles, Electa, p. 150

Artista

TIZIANO Vecellio

Data

1545/ 1546

Local

Nápoles, Museo e Gallerie Nazionali di Capodimonte

Medidas

202 x 176 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos Contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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