Retrato de Sir Bryan Tuke

Hans Holbein (1497c.-1543) e seu irmão Ambrosius (1493c. -1519 ca.) educam-se no ateliê de seu pai, Hans Holbein, o Antigo, muito requisitado por encomendas oriundas da própria cidade (Augsburgo), mas também de Frankfurt e da Alsácia.

Entre 1515 e 1517, ambos os irmãos iniciam suas habituais viagens de aperfeiçoamento, viajando de início para Basiléia, onde trabalham provavelmente no ateliê de Hans Herbst, e em seguida para Lucerna (1517-1519). Em Basiléia, é possível que tenham aprendido latim com o teólogo Oswald Myconius (1488-1552), cujo exemplar do Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, publicado em 1512, eles ilustram com desenhos marginais (Bätschmann e Griener 1997, p. 7).

Em 1519, recebido como mestre na guilda de Basiléia, Holbein trabalha para as grandes casas editoriais da cidade, então entre as maiores da Europa, de Johannes Froben, Adam Petri e Thomas Wolff. Entre 1524 e 1526, Holbein tenta uma nova posição na corte de Francisco I, onde Clouet (1475/80 – 1541) acabara de ser nomeado pintor do rei (1523). De Paris, Holbein segue para Londres, com cartas de recomendação de Erasmo endereçadas a Petrus Aegidius e a Sir Thomas More.

Embora deva retornar ainda a Basiléia, o avanço da Reforma, com seu repúdio pelas representações sacras leva a que a Inglaterra torne-se progressivamente seu lar. Uma primeira estada inglesa dá efetivamente lugar a uma segunda em 1532 que se prolonga até 1538 e que ocupa Holbein doravante sobretudo como retratista predileto da burguesia e da aristocracia inglesas.

Provavelmente já desde 1533, data do seu mais célebre retrato, o dos diplomatas franceses Jean de Dinteville e George de Selve*, Henrique VIII encomenda-lhe desenhos de jóias para Anne Boleyn. Em 1536, Holbein é já descrito como pintor do rei, realizando para ele a mais célebre série de retratos femininos da pintura européia entre 1535 e 1543, ano de sua morte, provavelmente em decorrência de uma peste em Londres naquele ano.

Em 1532, quando se inicia sua segunda estada em Londres, Holbein é prejudicado pelo acirramento das tensões entre Henrique VIII e o papa Clemente VII. Seus principais protetores estavam se afastando, como Thomas More, ou haviam morrido, como o arcebispo Warham.

Nesta conjuntura de rápidas transformações da corte, surge a figura em ascensão de Sir Bryan Tuke, nascido por volta de 1475 e que se faz retratar, como indica a inscrição, aos 57 anos de idade. Sua ascensão começara em 1517, como Governador dos Corrêios Régios, prosseguira com a nomeação a Secretário Francês de Henrique VIII e coroava-se em 1528 com a posição de Tesoureiro da Casa Real (Treasurer of the Royal Household).

Sir Bryan Tuke tem igualmente ambições no domínio das letras, pois assina um ambicioso Prefácio às Obras do poeta Geoffrey Chaucer (1344c.-1400), com um frontispício de autoria de Holbein.

Em 1528, quando se torna tesoureiro régio, Tuke é acometido por uma grave doença que quase o leva à morte. A lembrança desses sofrimentos explicam, talvez, não apenas a rara imagem do crucifixo com representação das cinco chagas de Cristo, como também a inscrição no papel sobre a mesa, retirada do Livro de Jó (10, 20):

Nunquid non paucitas dierum meorum finietur brevi?
(Pois meus poucos dias não terminarão em breve?)

Como notam Bätschmann e Griener, está implícita na inscrição
a frase sucessiva de Jó, na qual se revela seu apelo a Deus: “deixe-me em paz para que eu tenha algum conforto”.

Estes elementos, acrescidos do mote de Tuke, “Droit et Avant”, concorrem para o sentido moral do retrato, o de um memento diante da fragilidade da vida, temperado pelo apelo à clemência divina.

Luiz Marques
08/12/2010

Bibliografia
1950 – P. Ganz, The Paintings of Hans Holbein. Londres, Phaidon, p. 234
1997 – O. Bätschmann, P. Griener, Hans Holbein. Londres, Reaktion Books, p. 177

Artista

HOLBEIN, Hans, o Jovem

Data

1532c.

Local

Washington, National Galery

Medidas

40 x 39 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos Contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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