Triunfo de Pitágoras, Pai e Fundador da Música

Registro inventarial: inv. K. 5703

Monogramada “VS” diante do carro, a gravura (Bartsch 223,
Leb. 245) tem na base uma inscrição que lhe dá título:

DRIUMP PITAGER PATER DE MUSICA FUN[DATOR]
(Triunfo de Pitágoras Pai e Fundador da Música).

Ela mostra uma procissão com onze figuras, nove das quais
identificadas pelas seguintes inscrições, da esquerda para a
direita:

PALIS, ORFE[U], IUBAL SIRIGINA, PAN, PITAGORA, ORION
MERCURI[O], APOLLO

Palis é Palas, Orion é Arion e Siringina é Sirinx.

Pitágoras aparece na forma de uma figura feminina tronando
sobre um carro alegórico. Essa forma inesperada que o
filósofo de Samos assume parece bem ilustrar uma espécie de
eclipse de sua presença na história da arte, ainda tão
central na “Escola de Atenas” de Rafael (1508).

Tal eclipse parece correlativa à eclipse do conceito de
Musica mundana (Harmonia das Esferas) – que remontava
a Boécio e a Platão -, na tratadística musical após Giuseppe
Zarlino (1517-1590).

A gravura de Solis fornece talvez o signo mais eloquente
da fratura profunda ocorrida em meados do século XVI na
cultura visual e musical europeia. Por seu título
altissonante, esperar-se-ia encontrar uma síntese
iconográfica dos méritos de Pitágoras em relação aos
fundamentos da harmonia.

O que se vê, ao contrário, é uma desconcertante ausência, em
meio paradoxalmente a tantas presenças, de concetti
discerníveis. De Pitágoras, não se vê nenhum atributo
iconográfico, nenhuma forma susceptível de indicar seu
pensamento ou doutrina sobre a harmonia. Nada, com exceção
de seu nome, permite reconhecê-lo.

Sua curiosa metamorfose alegórica em uma mulher antecipa a
Iconologia de Cesare Ripa e seu heteróclito séquito
de personagens liga-se às mais incôngruas dimensões da
música. Tudo, em suma, concorre a certificar que a imagem de
Pitágoras estava então a ponto de desaparecer.

Tem-se, assim, a impressão, que se assiste nesta fascinante
gravura de Virgil Solis, não já a um triunfo ou a um
ingresso triunfal de Pitágoras, mas a uma sua solene e
festiva despedida da cena pictórica europeia.

Da mesma maneira, a Musica mundana encontrava nas
Institutioni Harmoniche de Gioseffo Zarlino, redigida
nos anos 1550, um ponto de chegada, com a codificação
teórica da prima pratica de Willaert, mas, sobretudo,
um momento de exaustão.

Evidentemente, essa eclipse de Pitágoras como fundador da
harmonia não é definitiva na história da arte. Ela se liga,
sobretudo, nos anos de Virgil Solis, à crise da prevalência
da tradição platônica nas poéticas do século XVI correlativa
ao entusiasmo suscitado pela Poética de Aristóteles.

Observa-se, de resto, um retorno da imagem de Pitágoras
associada à harmonia, ainda que sob uma forma algo críptica,
na célebre gravura intitulada “Harmonia das Esferas”* de
Agostino Carracci (segundo um desenho de Bernardo
Buontalenti), nascida em íntima relação com um episódio da
história da Camerata Fiorentina: os Intermezzi
de Emilio de´ Cavalieiri e Giovanni de´ Bardi para a comédia
La Pellegrina de Girolamo Bargagli, encenada por
ocasião das núpcias do granduque Ferdinando de´ Medici com
Cristina de Lorena, em 1589.

Embora baseada em uma passagem da “República” (X, 615-617)
de Platão, a mensagem pitagórica desta gravura parece
perder-se no vazio, como conclui Aby Warburg, já que,
segundo o estudioso alemão, pioneiro no estudo deste
espetáculo, “ninguém então se deu conta da ideia essencial,
isto é, que aí se figurava a harmonia musical do universo”.

A partir de 1540, Virgil Solis (1514-1562) e seu ateliê em
Nuremberg criaram mais de duas mil gravuras e desenhos. Ao
lado de Jost Amman, seu continuador, Solis é considerado o
mais prolífico inventor de modelos compositivos de meados do
Século XVI na gráfica europeia de expressão germânica.

Virgil Solis compôs ao menos outras duas Alegorias da Música
(Paris, Bibliothèque Nationale).

Luiz Marques
17/11/2011

Bibliografia:
1895 – A. Warburg, “I costumi teatrali per gli Intermezzi
del 1589: i disegni di Bernardo Buontalenti e il ´Libro di
conti´ di Emilio de´ Cavalieri” (1932), trad. italiana, La
Rinascita del paganesimo antico. Florença: La Nuova Italia,
2000, pp. 59-108.
1968 – A.P. Mirimonde, “Les Allégories de la Musique. I – La
Musique parmi les Arts Libéraux”. Gazette des Beaux-Arts,
72, pp. 295-324, p. 296.
1977 – I. O´Dell-Franke, Kupferstiche und Radierungen aus
der Werkstatt des Virgil Solis. Wiesbaden, pp. 50, 57, cat.
e123.
2000 – L. Marques, “Le origini della musica”. In S. Ferino-
Pagden, L. Marques, Dipingere la Musica. Strumenti in posa
nell´arte del Cinque e Seicento. Catálogo da exposição,
Cremona, pp. 31-36 e p. 160

Artista

SOLIS, Virgil

Data

1540/ 1541

Local

Viena, Österreich. Museum für angewandte Kunst

Medidas

60 x 236 mm

Técnica

Água-forte

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1130 - Pitágoras; 1162 - A Música; 1162E - As Origens da
Música; 12Pan - Pan; 104 - Orfeu; 12Apo - Apolo, Febo,
Hélio, Sol; 12Mer - Hermes Mercúrio; 514.30 - Yubal e a
origem da música;

Autor

Luiz Marques

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