Os honoráveis em gesso

“A partir do final do século XVIII, sobretudo graças à
publicação dos estudos desenvolvidos por Johann Caspar
Lavater (1741-1801), o interesse pela antiga doutrina da
fisiognomonia foi renovado.

Não muito depois, esse conhecimento adquiria um status
científico no momento em que os princípios da frenologia,
sistematizados por Franz Joseph Gall (1758-1828), foram
incorporados às discussões da época. De acordo com as
pesquisas de Gall, a formação óssea do crânio humano estava
diretamente relacionada com o caráter dos indivíduos, e uma
tal assertiva era mais do que suficiente para estabelecer um
fundamento comum para aqueles dois campos de estudo.

De fato, tanto a fisiognomonia quanto a frenologia partiam
do pressuposto de que é possível conhecer o interior do
indivíduo através de seu exterior, o homem moral através do
homem físico.

Tais teorias impressionaram eminentes personalidades
europeias, principalmente na Alemanha e na França. Herder,
Goethe, Füssli, David d´Angers e Géricault figuram entre os
intelectuais e artistas que demonstraram interesse por esses
assuntos, de modo que é compreensível que esse gosto tenha
rapidamente se difundido a partir do início do século XIX.

Foi nesse contexto que o escultor Jean-Pierre Dantan (1800-
1869), dito Dantan jeune, iniciou sua atividade artística.
Sua primeira aparição oficial ocorreu no Salão de 1827,
quando expôs um busto intitulado “”Espírito Negro””.

Trata-se do retrato de um índio norte-americano da etnia
Osage, e Dantan transferia para o gesso as inquietações e os
anseios de sua época ao se propor a revelar, por meio dos
traços fisionômicos, a essência daquele que para ele não
passava de um exótico homem do Novo Mundo.

Paralelamente à sua produção considerada séria, Dantan
notabilizava-se por se dedicar ao gênero caricatural. Uma de
suas primeiras incursões nesse terreno deu-se com uma
estatueta de corpo inteiro do célebre pintor nascido sem
braços, Ducornet. Pouco depois, o artista caía nas graças de
Horace e de Carle Vernet. O sucesso foi então uma
consequência natural. Desenvolvendo um hábito que tinha
precedentes gráficos na academia bolonhesa dos Carracci,
Dantan afirmava-se fazendo bustos caricaturais de artistas e
celebridades de sua época; eram os bustos-charge.

Segundo o dicionário de Pierre Larousse:

“”o sucesso [das obras] foi prodigioso; elas foram expostas
em público e todos aplaudiram. Cada um quis figurar na
galeria do artista; era receber, de algum modo, um atestado
de celebridade. De início vieram as grandes reputações,
então outras menores, enfim as pequenas; mesmo alguns
desconhecidos encontraram graça junto a Dantan e viveram
alguns dias nas vitrines de Susse, então ao lado da passagem
dos Panoramas, onde toda noite parava uma multidão de
passantes como em um alegre encontro do riso””.

A gravura aqui apresentada representa, de certa forma, uma
exceção na obra de Dantan. Isso não devido ao suporte – os
bustos-charge de Dantan seriam transpostos para a gravura em
duas oportunidades, nos álbuns Dantanorama e Museum
Dantanorama -, mas por ela abordar integrantes da classe
política.

Decerto que havia aí a influência de Charles Philipon (1806-
1862), fundador dos periódicos La Caricature e Le
Charivari
, mas o fato é que Dantan, temendo envolver-se
em complicações, quase sempre optou por evitar os políticos.

Assim, em 1843, quando Dantan foi condecorado com a cruz da
Legião de Honra, uma nota da edição de 6 de julho de Le
Corsaire Satan
resumiu muito bem aquela honraria e o
próprio posicionamento do artista: “”Meu caro, o senhor foi
condecorado não pelas caricaturas que fez, mas por aquelas
que não fez””.

Em “”Os honoráveis em gesso”” estão representados, sobre uma
estante, seis bustos-charge de personalidades políticas com
legendas que formam jogos de palavras com vários objetos.
Essa prática, o rébus, assim como o calembour, torna
o texto tão caricatural quanto a imagem, e a união desses
elementos esteve sempre presente tanto na vasta obra de
Dantan quanto nos periódicos dirigidos por Philipon.

A sociedade burguesa da Monarquia de Julho havia encontrado,
enfim, um meio apto para expressar simultaneamente sua
beleza e fealdade. Em Dantan jeune isso ainda se apresenta
em uma fase embrionária, seus bustos-charge servindo mais
para ganhar o riso fácil do que para provocar outras
reações. Contudo, de alguma forma aí já estava presente a
busca por tudo aquilo que pudesse destruir, ainda que
momentaneamente, o terrível inimigo da nascente modernidade,
o tédio.

Alexandre Ragazzi
10/10/2011

Bibliografia:
1865-1868 – P. Larousse, Grand dictionnaire universel du
XIXe siècle. Paris, 1865-78, p. 88.
1989 – P. Sorel, Philippe. Dantan jeune – Caricatures et
portraits de la société romantique. Paris, pp. 32, 76.

Artista

Dantan Jeune, Jean-Pierre Dantan, dito

Data

1832c.

Local

Paris, Musée Carnavalet

Medidas

desconhecidas

Técnica

Litografia

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *