Orfeu

A obra é mencionada já entre 1523 e 1527 por Paolo Giovio na
sua breve Vida de Michelangelo (Michaelis Angeli
Vita
):

Baccius Florentinus, ab certa potius indole quam ab
exacta manu laudandus. Hic Orpheum Cerberi ferociam lyra
demulcentem fecit, quem Clemens ante pontificatum ademptum
in cavedio Mediceae domus constituit

“Baccio Florentino, que deve ser louvado mais pelo seguro
talento que pela exata execução. Executou Orfeu que com
a lira amansa a ferocidade de Cérbero, obra que Clemente
[VII] antes de seu pontificado [1523-1534] colocou na corte
do palácio dos Medici”.

Não se conhecem as razões que levam Baccio Bandinelli (1493-
1560) e seus mecenas – o Cardeal Giulio de´ Medici e o papa
Leão X – a substituir o Davi brônzeo de Donatello*
por uma estátua de Orfeu para adornar a corte de ingresso,
isto é, o espaço por excelência de representação, de sua
residência florentina.

Como afirma Vasari na sua Vida de Baccio Bandinelli,
a escultura (transportada em seguida para o Casino de S.
Marco e depois para o Palazzo Vecchio, e hoje novamente no
Palazzo Medici-Riccardi) foi com efeito colocada no lugar do
Davi de Donatello, de que o palácio fora despojado
com a expulsão dos Medici em 1494.

É verossímil que o poder de Orfeu de apascentar com sua lira
e sua voz os furores bestiais aluda aqui ao dos Medici de
pacificar sua cidade, após a queda da República soderiniana
(1494-1512). Se assim for, o Orfeu de Bandinelli teria certo
paralelo simbólico com a Minerva e o Centauro* de
Botticelli (Uffizi), provavelmente alusiva ao poder
pacificador de Lorenzo il Magnifico após a malfadada
Conjuração dos Pazzi de 1478.

Na mesma Vida de Baccio Bandinelli, Vasari dá notícia desta
escultura, assinada BACCHIUS BANDINELLUS FACIEB, e de suas
evidentes relações com o Apolo do Belvedere, fruto da estada
do artista em Roma:

“Retornando Baccio a Roma, pediu ao papa, por favor do
cardeal Giulio de´ Medici, costumeiro em favorecer as
virtudes e os virtuosos, que lhe fosse permitido fazer para
a corte do Palácio dos Medici em Florença alguma estátua.
Assim, uma vez em Florença, fez um Orfeu de mármore, que,
com soar e cantar, aplaca Cérbero e comove o inferno que
dele se apieda.

Imitou nesta obra o Apolo do Belvedere de Roma e foi ela
merecidamente louvadíssima pois, ainda que o Orfeu de Baccio
não repita a postura do Apolo do Belvedere, imita-lhe
contudo muito apropriadamente a maneira do torso e dos
membros. Terminada a estátua, o cardeal a fez ser colocada
na mencionada corte do palácio, nos anos em que governava
Florença, sobre uma base esculpida por Benedetto da
Rovezzano escultor”.

Um desenho do Apolo do Belvedere de Bandinelli na Biblioteca
Ambrosiana* documenta o percurso do artista, da obra antiga
à moderna. A escultura trazia na mão esquerda uma lira, tal
como um seu fragmento deixa ainda supor e como o documenta
um desenho do século XVI.

Luiz Marques
30/09/2011

Artista

BANDINELLI, Baccio

Data

1516/ 1517

Local

Florença, Palazzo Medici-Riccardi

Medidas

desconhecidas

Técnica

Mármore

Suporte

Escultura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

104 - Orfeu; 12Apo - APOLO Febo, Hélio, Sol

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *