O Império de Flora

Flora, potência vegetal que faz florescer os vegetais, em especial os cereais, é um mito itálico introduzido nos cultos romanos, segundo a lenda, por Tito Tácio, rei dos Sabinos. Por sua função, ela mantém estreitas relações com Ceres, sendo ambas objeto de um culto único entre os Samnitas, particularmente em Agnone. Em Roma, as Floralia ocorriam entre 28 de abril e 3 de maio, segundo Marcial (Ep. I, 35) com o concurso de cortesãs. Um dos dozes flamines menores era a ela consagrado e dois Arvales presidiam aos sacrifícios em sua honra.

Nos Fasti V, 183-378, canto relativo ao mês de Maio, Ovídio heleniza-a, identificando-a com Cloris, uma ninfa dos Campos Elíseos, violentada por Zéfiro (entre os romanos, Favonius) vento fecundante da primavera. Zéfiro desposa-a e a torna Flora, graças à qual o mundo se enche de cores.

Malgrado a ovidiana presença de Cloris/Flora na Primavera de Botticelli (Uffizi, 1483c.), a iconografia de Flora não é especialmente abundante, sendo recorrente sobretudo em retratos alegóricos femininos com os atributos da divindade. Nicolas Poussin (1594-1665) dedica ao tema uma de suas obras-primas, O Império de Flora* (1631) da Gemäldegalerie de Dresden.

Em 1743, o conde Francesco Algarotti encomenda a Tiepolo dois quadros para o conde Heinrich von Brühl, ministro e conselheiro artístico de Augusto III, Príncipe-Eleitor da Saxônia: Mecenas e as Artes* (Ermitage) e esta pintura, da qual Algarotti possuía um riccordo em aquarela: “Tomei a liberdade, Senhor, de encomendar dois quadros para Vossa Excelência (…). O outro representará o Império de Flora que torna em deliciosos os lugares mais selvagens, e ver-se-á ao longe a bela Fonte do Jardim de Vossa Excelência” (carta de 19 de julho de 1743 apud Loire, Los Llanos).

A fonte em questão fora esculpida por Lorenzo Mattielli, escultor vicentino da corte de Dresden que passa a ocupar justamente em 1744, a posição de inspetor das esculturas antigas e modernas do rei.

Morassi assinala a influência sobre esta obra das doutrinas artísticas de Algarotti, que preconizava um Tiepolo continuador de Veronese e Poussin. Vendida em 1752, a obra passa em 1755 em um leilão parisiense sem encontrar comprador.

Luiz Marques
16/02/2010

Fontes:
Ovídio, Fasti, V, 183-378
Marcial, Epigrammaton Libri I, 35

Bibliografia:
1962 – A. Morassi, A complete Catalogue of the Paintings of G.B. Tiepolo. Londres, Phaidon, p. 47
1998 – S. Loire, J. de Los Llanos, Giambattista Tiepolo, 1696-1770. Catálogo da exposição, Musée du Petit Palais, p. 55.
2004 – T.P. Wiseman, The Myths of Rome, University of Exeter Press, pp. 6-12.

Artista

TIEPOLO, Giambattista

Data

1743-1744

Local

San Francisco, Fine Arts Museum

Medidas

72 x 88 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVIII

Index Iconografico

135clo - Cloris / Flora; 846 - Jardins e Arquiteturas imaginárias

Autor

Luiz Marques

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