Figura alegórica representando Pitágoras

Em um nicho decorado com uma máscara e festões, senta-se uma
hercúlea figura nua, segurando uma balança e um martelo
apoiado em uma bigorna. A seus pés, vê-se um compasso.

Tais atributos permitem identificar o sábio de Samos, do
século VI a.C.. Em sua “Vida Pitagórica” (XXVI), Jâmblico de
Câlcis (245c.-325c.) transmite a lenda, destinada a uma
grande posteridade:

“Uma vez, enquanto se concentrava no esforço de refletir e
calcular se fosse possível inventar um instrumento que
oferecesse ao ouvido um seguro e infalível auxílio, tal como
proporcionavam à vista o compasso, a régua ou a dióptrica,
ou a balança e a invenção das medidas ao tato, passou diante
da forja de um ferreiro e, por sorte em certo senso divina,
ouviu martelos que batiam o ferro sobre a bigorna, emitindo
sons em perfeito acordo harmônico recíproco, com exceção de
um par deles.

Naqueles sons, Pitágoras reconhecia os acordes de oitava, de
quinta e de quarta, e notava que o intervalo entre a quarta
e a quinta era em si mesmo dissonante, mas apto a aumentar a
grandeza entre os sons.

Alegrando-se que, com a ajuda divina, se realizasse assim
seu intento, entrou na oficina e por meio de variadas
provas compreendeu que a diferença na altura dos sons
dependia do peso dos martelos e não de sua forma ou da força
com que se os batiam ou da posição do ferro batido”.

Pitágoras descobre, a partir desta experiência e da
sucessiva invenção do Monocorde, que as relações entre as
consonâncias de oitava, quinta e quarta exprimem as
proporções aritméticas 1:2, 2:3 e 3:4, as quais compõem o
tetraktys, isto é, as 4 mônadas 1, 2, 3 e 4, cuja
soma é igual a 10, capazes de exprimir as proporções
harmônicas fundamentais da música e do universo.

Tais equivalências aritméticas e metafísicas entre música e
matemática serão retomadas no século VI no De musica
de Boécio e em sucessivos tratados medievais até chegar à
sistematização proposta por Franchino Gaffurio em seu
Theorica musice de 1492.

Elas explicam porque em 1545, data de um documento de
pagamento desta obra a Girolamo Mazzola Bedoli esta enorme
alegoria decorava as laterais de um órgão da
igreja de S. Giovanni Evangelista em Parma, tendo aí por
pendant uma alegoria de Euclides*. Vide:

http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3561

Que o modelo deste nu seja o “Torso do Belvedere”* parece
indubitável. Vide:

http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=2607

e

http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=2617

Luiz Marques
12/12/2011

Bibliografia:
1987 – The Pythagorean Sourcebook, compiled and translated
by K. Sylvan Guthrie, ed. D. Fideler, Michigan: Phanes
Press, p. 86.
1991 – Jâmblico, La Vita Pitagorica. Introdução, tradução e
notas de M. Giangiulio. Milão: Rizzoli, BUR, pp. 261-263.
1995 – L. Fornari Schianchi, “Figura allegoria maschile
seduta con bilancia e martelli (Pitagora)”. In, L. Fornari
Schianchi, N. Spinosa, I Farnese. Arte e Collezionismo,
Catálogo da exposição, Parma, Nápoles, Munique. Milão:
Electa, pp. 224-226.
2000 – L. Marques, “Le Origini della Musica”. In, S. Ferino-
Pagden, Dipingere la Musica, Catálogo da exposição, Cremona
e Viena. Milão: Skira, pp. 37-42.
2002 – A. Hasnaoui, Pyhtagore. Un dieu parmi les hommes.
Paris: Les Belles Lettres.
2007 – M. Emmer, Matematica e Cultura. Milão: Springer-
Verlag Italian, Signum, Bollate, p. 162.

Artista

MAZZOLA BEDOLI, Girolamo

Data

1545

Local

Piacenza, Museo Civico

Medidas

365 x 217 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1130 - Pitágoras; 1122 - Filósofos Antigos; 1145 -
Matemáticos antigos; 1162 - A Música; 1162A - A Harmonia e a
Música mundana; 1162E - As Origens da Música

Autor

Luiz Marques

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