Retrato de Jovem, supostamente Lorenzino de´ Medici

Embora recentemente dissociado por Costamagna da figura de Lorenzino de´ Medici (1514-1548), o retrato foi a ele associado pela maioria dos estudiosos que dele se ocuparam.

Lorenzino, cujo apelido adquirido em Roma era Lorenzaccio é conhecido por um drama, Aridosio, por seus madrigais (Vero inferno è il mio petto, por exemplo), suas epístolas e sua Apologia, mas acima de tudo por ter urdido na noite do dia 5 para 6 de janeiro de 1537 o assassinato do duque Alessandro de´ Medici. Lorenzino arma-lhe uma cilada, atraindo-o à sua casa com a promessa de uma noitada amorosa com sua tia, Caterina Ginori, ou com sua irmã, Laudòmia de´ Medici, viúva de Alamanno Salviati. Ao invés da prometida, Alessandro encontrará um assassino a soldo, certo Scoroncóncolo.

Concebido como um tiranicídio, o ato transcendia o contexto político florentino e atingia o próprio imperador Carlos V, que, em 19 de junho de 1536, dera em casamento ao duque sua filha natural. Ele espelhava-se não apenas no assassinato de Tarquínio pelo primeiro Bruto (era então recorrente a associação entre o luxurioso Alessandro e o violador de Lucrécia), mas, sobretudo, no assassinato de César pelo segundo Bruto.

Uma efígie de Lorenzino, proclamado por Varchi o “Bruto Toscano, aparece então em uma medalha, encomendada a Giovanni dal Cavino e cunhada no norte da Itália, réplica de uma medalha de Bruto comemorativa do assassinato de César.

A comparação com Bruto era pertinente também pelas desastrosas consequências do assassinato, pois embora os republicanos, entre os quais Donato Giannotti, Filippo Strozzi, os cardeais Ridolfi, Salviati e Gaddi tentem então restaurar a República, o confronto político-militar acaba por levar à consolidação do regime autocrático do duque Cosimo I.

Luciano Berti aproxima justamente a obra da estátua de Lorenzo de´ Medici, duque de Urbino, de Michelangelo, na Sacristia Nova, esculpida antes de 1534:

“Quando se olha o tão sugestivo e inquietante retrato de Salviati – supostamente, como também o crê Langedijk, de Lorenzino -, constata-se como aqui a impostação totalmente particular dos braços em contraposto e da cabeça voltada para a esquerda é, por sua vez, tomada justamente do Lorenzo* na Sacristia”.

A encenação do retrato é deveras extravagante, com a figura vestida de seda negra em uma posição de extrema elegância, segurando com as mãos afiladíssimas um par de aristocráticas luvas. Nada nela evoca o ato do tiranicídio espelhado na Antiguidade, nem a postura meditabunda de seu modelo michelangiano. Ela se sobrepõe a um grande cortinado verde que deixa ver nas laterais da composição um céu em chamas e uma paisagem de colinas com um lago. As figuras no plano de fundo são o Marzocco, leão emblemático de Florença, e o rio Arno, representado como uma divindade fluvial.

Luisa Mortari, que considera o retrato também de Lorenzino, data a obra de 1544, enquanto Costamagna propõe os anos 1546-1548. É evidente, entretanto, que, a se considerar o retrato como de Lorenzino, ele deve datar de antes de 1537, seja porque a figura tem evidentemente pouco mais de 20 anos, seja porque Salviati deve tê-lo retratado em Florença, antes de sua fuga para Bolonha, França e Veneza.

Luiz Marques
18/12/2010

Bibliografia:
1983 – K. Langedijk, The Portraits of the Medici, Florença, Studio Per Edizioni Scelte, vol. II, p. 1137-1138.
1992 – L. Mortari, Francesco Salviati, p. 150
1998 – Ph. Costamagna (et alia), Francesco Salviati. Catálogo da exposição, Roma, n. 92
2008 – L. Berti, “A Fortuna da Sacristia Nova: até o primeiro guia artístico de Florença (1591)”. In, L. Marques, A Fábrica do Antigo, Campinas, Editora da Unicamp, p. 132

Artista

SALVIATI, Francesco (Cecchino) de´ Rossi, chamado

Data

1535/ 1548c.

Local

Saint-Louis Art Museum

Medidas

102 x 825,5 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos Contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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