A Dança da Madalena

Maria de Magdala, mais tarde Maria Madalena, é citada nos Evangelhos, precisamente em Lucas,8,2: “Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios”. A tradição assimilou-a à Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro, mas sobretudo à pecadora anônima, no episódio do convite à ceia na casa do fariseu (Lucas, 7,36-50), durante o qual, ela unge de perfume e banha os pés de Jesus com suas lágrimas, enxugando-os com os cabelos, razão pela qual Jesus perdoa seus pecados.

Além desta cena da unção, Madalena foi muito representada também como uma das mulheres pias aos pés da cruz (João 19,25), como a primeira a ver o Cristo após a ressurreição (Noli me tangere) ou como eremita no “deserto” da Provença (Sainte Baume), após a ascensão. O século XVII preferirá não-raro o momento da conversão ou de penitência pós-conversão, vivido como uma experiência catártica e solitária, não desprovida por vezes de intenso erotismo.

A presente cena da vida de Maria Madalena anterior à sua conversão, representada nesta gravura de excepcionais dimensões (Bartsch 122), é mais rara, mas tem seu lugar desde o século XV na vastíssima iconografia madaleniana.

Nem os Evangelhos, nem, salvo engano, qualquer fonte patrística oferece uma fonte textual para esta cena, que pode ser talvez encontrada nas sacras representações francesas do século XV. Réau menciona, por exemplo, uma cena do Mistério da Paixão, de Jean Michel, encenado em Angers em 1496, intitulada Mondanité de Marie-Madeleine.

Lucas van Leyden (1494c. – 1533), pintor, desenhista, gravurista e editor, uma geração mais jovem que Dürer, é o maior vulto da gravura nórdica de seu tempo, arte na qual conheceu ainda em vida uma celebridade europeia sem rival. Dele conservam-se aproximadamente 170 águas-fortes, algumas das quais pioneiras na constituição das assim chamadas representações da vida cotidiana ou de conversões de temas bíblicos a tais “cenas de gênero”, em um espírito claramente anedótico. É o caso desta Madalena, bailarina, suntuosamente vestida, que ensaia um passo de dança em meio a um fantástico “concerto campestre setentrional”, com suas 47 figuras humanas, verdadeiras protagonistas da composição.

A santa, claramente distinguível por seu nimbo, é representada mais duas vezes na gravura: na cena cortês de caça e, ao fundo, sendo levada ao céu por quatro anjos, assunção narrada, por exemplo, na Legenda Aurea de Jacopo da Varagine: “Todos os dias, os anjos a elevavam ao ar, onde, durante uma hora, ela ouvia a música angelical, após o quê, saciada por esta refeição deliciosa, voltava à sua gruta, sem a menor necessidade de alimentos corpóreos”.

A obra conclui um grupo de cinco águas-forte de temas bíblicos, executadas a partir de 1510, caracterizadas por possuir as dimensões de um inteiro fólio e pela ênfase inusual no contexto cênico, antes que nas personagens principais. As demais gravuras são: Ecce Homo (1510, B.71), Retorno do filho pródigo (1510c., B.78), Triunfo de Mordecai (1515c., B.32) e Golgota (1517, B.74).

Luiz Marques
06/11/2010

Bibliografia
1940 – D. Stanton, “The Dance of the Magdalen by Lucas van Leyden”. Bulletin of the Art Institute of Chicago, 34, 3 Março, pp. 43-44.
1957 – L. Réau, Iconographie de l´art chrétien. Trad. espanhola. Barcelona, ad vocem.
1996 – J.P. Filedt Kok, “Lucas van Leyden”. The Grove Dictionary of Art, vol. 19, ad vocem.

Artista

Lucas van Leyden

Data

1519

Local

Localização ignorada

Medidas

296 x 390 mm

Técnica

Água-forte

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

806 - Santos. Imagens e Ciclos biográficos; 806Mada - Maria Madalena

Autor

Luiz Marques

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