Leda e o Cisne

“Zeus une-se a muitas mulheres, mortais e imortais”, escreve o Pseudo-Apolodoro em sua Biblioteca (I,3,1). Leda, filha de Téstio, rei da Etólia (região extremo-oeste da Grécia continental, banhada pelo mar Jônio), era esposa do rei Tíndaro, um príncipe da Lacedemônia, a região meridional do Peloponeso, banhada pelo Golfo da Lacônia, cuja capital é Esparta. Expulso desse reino por seu irmão, Hipocon, Tíndaro refugia-se em Calidon, na Etólia, sob a proteção de Téstio, que lhe dá a filha Leda em casamento, em gratidão por seu auxílio nas guerras fronteiriças de seu reino.

Mais tarde, Hércules restitui o trono a Tíndaro e Leda o acompanha de volta a Esparta. É nesta altura que Zeus intervém. O texto do Pseudo-Apolodoro (Biblioteca, III,75) guia-nos aqui:

“Zeus, sob forma de cisne, uniu-se a Leda e, na mesma noite, a ela se uniu também Tíndaro: de Zeus, nasceram Helena e Pólux, de Tíndaro, Castor e Clitemnestra. Alguns dizem, entretanto, que Helena era filha de Zeus e de Nêmesis, a qual, para se esquivar de Zeus, transformou-se em gansa, mas Zeus tomou a forma de um cisne e uniu-se a ela. Da união, Nêmesis botou um ovo, que um pastor encontrou nos bosques e doou a Leda. Essa guardou-o em uma urna e, dele nasceu Helena, que Leda adotou como filha”.

A partir de Eurípedes, prevalece a versão segundo a qual a própria Leda pusera dois ovos, de onde teriam saído os dois casais: Pólux e Clitemnestra, e Castor e Helena.

No Renascimento, o tema de Leda foi retomado à saciedade, em geral segundo os exemplos de Leonardo e Michelangelo, até se tornar objeto da sátira de Rabelais. Em um dos ensaios, “Amor como um Deus de Morte” (Mistérios Pagãos no Renascimento, 1956), Edgar Wind sugere que, para além da sintomática presença de Leda no contexto da escultura funerária, há uma recorrente associação entre os temas de “Leda” e da “Noite”, sobre a qual Plutarco escreve: “o nome Leda é geralmente associado a Leto, e explicado como Noite, mãe dos deuses luminares”.

“Na teologia poética”, propõe Wind, “Leda e Noite eram uma só, e suas figuras representam dois aspectos de uma teoria da morte na qual pesar e alegria coincidem”.

A tela é parte de uma tetralogia de Correggio (1489-1534) dedicada aos Amores de Júpiter e inspirada, em geral, nas Metamorfoses de Ovídio. Ela foi encomendada ao artista por Federico II Gonzaga (1500-1540), duque de Mântua, que desejava doá-la a Carlos V em sua coroação em Bolonha em 1530. Além desta Leda, a série compõe-se da Danae da Galleria Borghese, da Io e do Rapto de Ganimedes, ambos no Kunsthistorisches Museum de Viena. A série não foi concluída senão em 1532.

Ao contrário do célebre cartão de Michelangelo* (1529), cuja composição inspira-se em camafeus antigos, Correggio adota uma composição totalmente diversa e francamente erótica. Ela é, de resto, dentre as quatro cenas mitológicas de Correggio, a mais explícitamente erótica.

Tal erotismo induziu Louis d´Orléans – filho do Regente de França, Philippe d´Orléans (1674-1723) – num ataque de furor moralista a vandalizar a obra, destruindo completamente a cabeça de Leda, que é, hoje, uma recriação de Schlesingen, a obra tendo sido em geral recomposta por Charles Coypel ou sob sua direção. Dentre as várias cópias da obra, a do Museo del Prado (165 x 193 cm) é sobretudo valiosa por datar de antes da parcial destruição do original.

As quatro telas de Correggio pertencem à galeria das obras-primas da pintura emiliana do século XVI que, ao lado dos Carracci e de Domenichino, fazem de Correggio uma das referências primordiais do “Ideal Clássico” dos séculos sucessivos. A tal título, elas são objeto de uma excepcional antologia de descrições, análises e comentários que, por si só, em especial graças a Vasari, Carracci e sobretudo Raphael Mengs (1762), compõem um capítulo da história da écfrase e da crítica.

Luiz Marques
03/01/2011

Bibliografia
1970 – A.C. Quintavalle, L´Opera Completa del Correggio. Milão, Rizzoli, p. 109
1997 – D. Ekserdjian, Correggio, New Haven, Londres, p. 288.

Artista

CORREGGIO (Antonio Allegri)

Data

1530/ 1532

Local

Berlim, Gemäldegalerie

Medidas

152 x 191 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

12Jupx - Os Amores de Júpiter; 12JupxLed - Júpiter e Leda ou Nêmesis

Autor

Luiz Marques

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