Bóreas, o Vento do Norte

“Dentre as primeiras personificações do Vento como entidades
mitológicas na arte da Idade Moderna, contam-se uma
ilustração da cena do naufrágio de Eneias, no canto I, vv.
72-101 para o famoso manuscrito da Eneida de Virgílio,
hoje na Biblioteca Riccardiana de Florença (Ms. 492, fol.
62v), e um cassone conservado na Yale University Art
Gallery, ambas obras de Apollonio di Giovanni e de seu
ateliê, datáveis dos anos 1450-1460.

Nenhuma dessas personificações tem, contudo, a força de
caracterização deste Bóreas, o Vento do Norte, de Liberale
da Verona. Dentro de uma letra O, a iluminura representa
esta divindade do vento do norte, habitante ou rei da
Trácia, país do frio para os gregos. O mais forte e violento
dos três ventos mencionados por Hesíodo, ele é representado
na Antiguidade como um demônio alado.

Liberale di Jacopo della Biava, chamado Liberale da Verona
(1445c.-1527/29), representa-o sem asas, mas como uma figura
hercúlea de um gélido azul com os cabelos imensos e eriçados
para trás em forma de cone, alusivos ao vento. Ele é visto
na posição de um corredor, com um pé sobre um barco, como a
impeli-lo com seu sopro, o que o associa ao vento marítimo
e, segundo Enzo Carli, aos versos de Homero na Odisseia
(XIV, 201-204):

“”De Creta largo ao sétimo [dia], e do puro
Bóreas ao fresco alento, qual se fosse
Veia abaixo, aportamos sem perigo,
Aos pilotos e ao vento encomendados.””
(tradução de Manuel de Odorico Mendes)

Bóreas é uma divindade pré-olímpica. Na Theogonia (371-379),
Hesíodo o faz filho de Astraios e de Eos (Aurora), ela mesma
filha de Teia, a Titânide, força elementar, filha de Uranos
e de Gaia, além de irmã e esposa de Hiperion:

“”Teia deu ao mundo o grande Sol (Hélio) e a brilhante Lua
(Selene), e Eos (Aurora), que a todos ilumina aqui em baixo
como aos deuses imortais, mestres do vasto céu. Ela sofrera
a lei amorosa de Hiperion. (…) Para Astraios, Aurora gerou
os Ventos de coração violento: Zéfiro, que clareia o céu,
Bóreas veloz, e Notos, enfim, nasceram do amor da deusa
entre os braços do deus””.

Filiando-se à cosmogonia dos estoicos, Ovídio, nas
Metamorfoses (I, 65), narra a separação dos elementos pelo
demiurgo e a ação e natureza dos quatro ventos no mundo
criado pelo fabricator, sendo o “”horrível
(horrifer) Boreas”” sempre o vento mais inclemente:

Imminet his aer; qui, quanto est pondere terrae,
Pondere aquae leuior, tanto est onerosior igni.
Illic et nebulas, illic consistere nubes
iussit et humanas motura tonitrua mentes
et cum fulminibus facientes fulgora uentos.
His quoque non passim mundi fabricator habendum
Aera permisit; vix nunc obsistitur illis,
Cum sua quisque regat diverso flamina tractu,
Quin lanient mundum; tanta est discordia fratrum.
Eurus ad auroram Nabataeaque regna recessit
Persidaque et radiis iuga subdita matutinis;
Vesper et occiduo quae litora sole tepescunt,
Proxima sunt Zephyro; Scythiam septemque triones
Horrifer inuasit Boreas; contraria tellus
Nubibus assiduis pluuioque madescit ab Austro

(Acima, estende-se o ar, tanto mais leve que a terra e a
água, quanto mais pesado que o fogo. É este o lugar que ele
estabeleceu para as névoas e as nuvens, aos trovões que
abalam as mentes e aos ventos que causam os raios e
relâmpagos. A estes, também, o arquiteto do mundo não
permitiu possuírem o ar por toda a parte; ainda hoje, não
obstante os sopros reinarem cada um em uma região diversa,
pouca é a resistência que se lhes pode opor para não
dilacerarem o mundo, tanta é a discórdia entre os irmãos.
Euro retirou-se para Aurora, o reino do Nabateus, para a
Pérsia e para os cimos sujeitos aos raios matutinos; Vésper
e as margens aquecidas pelo sol poente próximas estão de
Zéfiro; o horrível Bóreas invade a Cítia e o setentrião; a
região oposta da Terra é constantemente umedecida pelas
nuvens e pela chuva).

O poeta português, Antônio Feliciano de Castilho (1800-
1875), oferece desse trecho uma bela tradução, naturalmente
menos literal:

“”Ás zonas o Ar; que em pêso ao fogo excede,
Quanto em leveza o mar excede á terra.
Deos ordenou, que as Névoas, e que as Nuvens
Errassem no inconstante aéreo seio;
Que os Ventos o habitassem, productores
D´arrepiados, importunos frios,
E os Raios, os Trovões, que o mundo aterrão.
Mas o Supremo Autor não deo nos ares
Arbitrario poder aos duros Ventos.
E inda assim, dominando oppostos climas,
Mal póde o mundo contrastar-lhe as furias;
Tal ferve entre os Irmãos a desavença!
Euro foi sibilar ao Ceo da Aurora,
Aos Reinos Nabathêos, á Pérsia, aos cumes
Que o raio da manhã primeiro alcança.
O Véspero, essas plagas, que se amórnão
Com o Phebo occidental, estão visinhas
Ao Zéphyro amoroso. O féro Bóreas
Da Scythia féra, e dos Triões se apossa””.

(continua no comentário à imagem da página desta iluminura,
veja-se http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3642)”

Artista

Liberale da Verona

Data

1470c.

Local

Siena, Catedral, Libreria Piccolomini

Medidas

desconhecidas

Técnica

Têmpera sobre pergaminho

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

11Ven - Ventos; 10Venb - Bóreas

Autor

Luiz Marques

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