O Cristo como Apolo ou Hélio, em meio à Vinha mística

Nas pinturas das catacumbas e nos relevos dos sarcófagos,
antes mesmo que se ergam as primeiras basílicas no século
IV, vemos surgir uma tipologia do Cristo antropomórfico, que
absorve muito das representações divinas e funerárias pagãs
e que se desdobram a partir a dicotomia fundamental de suas
duas naturezas, divina e humana.

Um desses tipos, que assume significados e aspectos
diversos, é o Cristo solar, solidário das teologias solares
do planalto iraniano, do tipo do Sol invictus,
divindade de Emesa na Síria, mas também claramente
assimilado a Hélio ou a Apolo condutor da quadriga solar,
como se vê neste mosaico da abóboda do Mausoléu M da
Necrópole vaticana.

Construído no seculo II pela família dos Iulii, este hipogeu
foi decorado em meados do século III, por ocasião de sua
readaptação para receber inumações, com mosaicos que incluem
também representações de Jonas, do Pastor e do Pescador.

Como se sabe, a heliolatria é um traço recorrente da
religião imperial desde a dinastia Júlio-Claudiana, de
Augusto a Nero, que se faz retratar no teatro de Pompeu em
uma pintura de composição provavelmente muito similar a este
mosaico. Elagábalo (218-222) elege o Sol invictus,
como deus do Império, eleição restaurada por Aureliano, em
270-275 e reiterada por Constantino, antes da batalha da
Ponte Mílvia.

Maria Cristina Carlo-Stella (2006) faz notar que:

l´orientamento dell´immagine e la collocazione stessa
nell´ambiente ipogeo, non lontano dal presunto tempio
dedicato ad Apollo e dal Circo di Nerone, devoto della
divinità Sol, potevano ricordare il culto praticato nel
mondo pagano
.

“a orientação da imagem e sua própria colocação no ambiente
do hipogeu, não distante do presumido templo dedicado a
Apolo e do Circo de Nero, devoto da divindade Sol, podiam
recordar o culto praticado no mundo pagão”.

Na realidade, em âmbito imperial, o Sol invictus
associava-se a diversas outras divindades, tais como Júpiter
Heliopolitano de Baalbeck-Heliópolis ou Bel, de Palmira, mas
sobretudo ao iraniano Mitra, profundamente helenizado desde
os primeiros séculos da era cristã, que, em numerosas
inscrições, traz os epítetos de Helios, Sol e de Sol
invictus
.

Por um lado, a emergência da imagem de Cristo da imagem do
Sol era particularmente adaptada às tendências monoteístas
do neoplatonismo, e Porfírio dirá por volta de 300 que o
mesmo deus é chamado Sol entre os deuses, Liber (Diôniso)
sobre a Terra e Apolo, sob a Terra. Por outro lado, o
simbolismo do Cristo como luz do mundo, presente já no
Evangelho de João (8,12), incorporava, como de há muito
reconhecido, elementos da solaridade gnóstica.

Desde 7 de março de 321, Constantino promulga uma lei,
presente mais tarde no Digesto Justiniano, segundo a qual:

“os juízes, os habitantes da cidade, os mercadores e
artífices devem descansar no venerável dia do Sol”.

Desde 336, atesta-se em Roma a celebração do nascimento de
Jesus não mais em 6 de janeiro, dia da Epifania, mas em 25
de dezembro, o Dies Natalis Solis Invicti, o dia de
nascimento de Sol invicto. Em 354, Libério, bispo de Roma,
decreta que esta data, que é também a da festa romana do
solstício de inverno e a do nascimento de Mitra, é
efetivamente a data do nascimento do Cristo.

Mas a fusão entre Cristo e as diversas divindades solares do
mundo antigo, operada no século III, será lenta, não vindo a
se completar senão no século VII, e em todo caso não antes
de Gregório Magno (590-604), que ainda censura severamente
aqueles que celebram em 25 de dezembro o nascimento do deus
Sol.

Luiz Marques
18/10/2011

Bibliografia
2006 – M.C. Carlo-Stella, in A. Paolucci, Petros Eni. Pietro
è Qui. Catálogo da exposição. Vaticano, Braccio di Carlo
Magno, Roma: Edindustria, p. 188

Artista

Anônimo

Data

250c.

Local

Vaticano, Musei Vaticani

Medidas

103,5 x 142,5 cm

Técnica

mosaico

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

ARTE PÁLEO-CRISTÃ

Index Iconografico

700C1 - Cristo como Sol

Autor

Luiz Marques

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