Retrato de Laura Battiferri

Registro inventarial: MCF-LOE 1933-17

Laura (1523-1589) é filha natural de Giovanni Antonio Battiferri, cujo palácio em Urbino tem a fachada projetada por Rafael, seu amigo, segundo narra Vasari na “Vita di Vincenzio da San Gimignano e Timoteo da Urbino” (1568).

Enzo Noe Girardi resume as informações disponíveis sobre Laura Battiferri, a começar por sua aprimorada educação literária, filosófica e religiosa. Viúva ainda jovem de Vittorio Sereni, de Bolonha, casa-se novamente em 1550 com o arquiteto e escultor florentino, Bartolomeo Ammannati (1511-1592), união que promove uma intensa interação intelectual e artística, abrindo-lhe as portas para os círculos literários da corte do duque Cosimo I.

Com o marido, encontra-se em Roma em 1552, onde compõe madrigais e sonetos em louvor da Urbe (“Superbi e sacri colli” e “Ecco ch´io da voi sacre alte ruine”). Estreita então relações com alguns dos grandes literatos de seu tempo, dentre os quais Annibale Caro, Bernardo Tasso, Il Tasca, Pier Vettori e sobretudo Benedetto Varchi, a quem endereça 16 Lettere entre 1556 e 1563, que acompanham e circunstanciam seus poemas, sempre no intuito de que Varchi os corrija.

Acolhida na Accademia degli Assorditi de Urbino e na Accademia degli Intronati de Siena, Laura Battiferri teve amizade também com artistas como Luca Martini, Benvenuto Cellini e Bronzino, que em especial a venera. Em 1560, publica-se Il primo libro delle opere toscane di M. Laura Battiferra degli Ammannati (Florença:Giunti), com dedicatória a Eleonora de Toledo, obra que lhe vale certo renome fora de Florença. Em Roma, Michelangelo, em carta a Ammannati, exprime o desejo de conhecê-los e Vasari na edição de 1568 da “Vita di Madonna Properzia de´ Rossi” equipara-a a Vittoria Colonna e a Vittoria Gambara.

Laura Battiferri é retratada por Bronzino por volta dos 35 anos. O retrato e a retratada serão objeto de ao menos 11 poemas, conforme as pesquisas de Carol Plazzotta (1998), dentre os quais um do próprio Bronzino, publicado juntamente com o livro da poeta em 1560, com extravagantes hipérboles:

Voi per proprio valor Laura e Beatrice
Vincete, e siete ai lor pregi di sopra
E forse ai loro amanti in stile e canto

(Venceis por valor próprio a Laura e Beatrice e estais acima de seus méritos e talvez dos seus amantes em estilo e canto).

Talvez a mais aguda percepção da severidade sdegnosa e sombria que se estampa no perfil de ave de rapina de Battiferri, lívido e aquilino, seja a que fornece o próprio Bronzino no verso:

Tutta dentro di ferro, e fuor di ghiaccio

Para além do lugar-comum da musa de inflexível virtù, o jogo de palavras sugere no retrato, paradoxalmente, um envolvimento emocional do artista com seu modelo que nada tem da coisificação e da ataraxia em pietra dura de sua retratística de corte. O Canzoniere de Petrarca que Battiferri segura aberto remete não apenas à associação da poeta com Petrarca, modelo único da lírica vernacular do século XVI segundo o decreto de Pietro Bembo, mas também à identificação entre as duas Lauras, a de Petrarca, retratada por Simone Martini, e a de Bronzino, neste retrato.

Os dois sonetos – LXIV (Se voi poteste per turbati segni) e CCXL (I´ ò pregato Amor, e ´l ne riprego) – que aqui se lêem reforçam a ambivalência entre o poeta/pintor e sua musa/modelo. Como nota Raffaele De Giorgi, os topoi petrarquianos – alloro, lauro, l´aura, gentil pianta – reforçam também a ideia de Laura “como quintessência da Natureza e sobretudo da Poesia”. Não por acaso, Laura é retratada de perfil (um unicum na retratística de Bronzino), pois tal silhueta adunca traz à mente, conclui De Giorgi, a bem mais célebre de Dante.

Entre 1582 e 1585, Hans von Aachen retrata de novo Laura Battiferri, segundo Baldinucci e Karel van Mander, enquanto Alessandro Allori a retrata uma última vez na figura de uma mulher pia na cena do Cristo com a mulher de Canaã, na igreja de S. Giovannino degli Scolopi.

Luiz Marques
24/07/2011

Bibliografia:
1902 – A. Furno, La Vita e le Rime di Angiolo Bronzino. Pistoia: G. Flori.
1998 – C. Plazzotta, “Bronzino´s Laura”. The Burlington Magazine, 1141, CXL, pp. 251-263.
2010 – R. De Giorgi, in C. Falciani, A. Natali, Bronzino. Pittore e Poeta alla Corte degli Medici. Catálogo da exposição. Florença: Mandragora, p. 218
s/d – E.N. Girardi, Laura Battiferri, Dizionario Biografico degli Italiani, ad vocem

Artista

Bronzino, Agnolo di Cosimo di Mariano, chamado Il

Data

1555/ 1560c.

Local

Florença, Palazzo Vecchio

Medidas

83 x 60 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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