Massacre dos inocentes

“Por volta de 1553, Daniele da Volterra e seus ajudantes afrescavam a capela de Lucrezia Della Rovere na igreja da Santissima Trinità dei Monti (Roma). Eram três representações de tema mariano, isto é, a Apresentação da Virgem ao templo, sua Assunção e o Massacre dos inocentes.

Fato bastante conhecido, para essa comissão Daniele da Volterra delegou grande parte dos trabalhos a Michele Alberti, e praticamente ninguém contesta o depoimento de Giorgio Vasari segundo o qual foi esse o artista que transferiu para a parede da esquerda os cartões de Daniele da Volterra.

O quadro dos Uffizi representa uma versão em tamanho reduzido desse afresco. Com efeito, alguns anos depois dos trabalhos na capela, Daniele reutilizou sua composição e pintou esse painel para a igreja de San Pietro in Selci, em Volterra. Segundo a tradição, nessa igreja estavam custodiadas as relíquias dos mártires inocentes – atualmente mantidas na igreja adjacente de Sant´Agostino -, de modo que é compreensível que o artista tenha se disposto a realizar uma obra que associaria indelevelmente seu nome ao valioso tesouro de sua cidade natal.

Na cena representada, ao fundo e à esquerda, entre as colunas, surge um sombrio Herodes que ordena que todos os meninos menores de dois anos sejam mortos (Mt. 2,13-23), e, próximos a ele, homens munidos de trombetas anunciam o início do massacre.

A partir desse ponto, a ação desenvolve-se em um movimento crescente em direção ao primeiro plano. Desesperadas, as mulheres, grandes matronas, oferecem seus corpos para salvaguardar os filhos. Disputam os pequenos com os soldados em uma batalha que já se sabe perdida de antemão, o que só faz aumentar o sentimento dramático da cena.

No centro da composição, veem-se os inocentes amontoados. São poucos ainda, mas é possível prever que a pilha logo será imensa. No primeiro plano, à esquerda, chora a morte do filho a única mulher que já desistiu de lutar. Ela parece ser a representação do trecho final do relato de Mateus, quando o evangelista faz alusão ao cumprimento da profecia de Jeremias (Jr. 31,15):

“”Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem!””

Note-se ainda que se a arquitetura em que tem lugar o massacre parece revelar uma tentativa de assimilar Rafael (veja-se, por exemplo, o quadro com os Esponsais da Virgem, da Pinacoteca di Brera), todavia as formas musculosas e contorcidas não deixam dúvida de que Michelangelo é sempre o grande modelo para Daniele.

De fato, o personagem em destaque à frente da composição – que tem o braço direito levantado e pronto para disparar o punho cerrado na direção da criança que a mãe, ajoelhada, tenta proteger – claramente foi realizado a partir do modelo tridimensional feito por Michelangelo para Sansão e os filisteus*. Prova disso encontra-se no próprio quadro, pois o artista reutilizou esse modelo, desta vez girado e com a espada em punho, na extremidade oposta da obra. Como muitos artistas de sua época, Daniele compartilhava os ideais de Michelangelo e julgava que uma boa compreensão da pintura em grande parte dependia de um pleno domínio da escultura.

Alexandre Ragazzi
26/04/2011

Bibliografia:
2003 – V. Romani (ed.), Daniele da Volterra – Amico di Michelangelo. Florença, pp. 43-3, 152-3.
2004 – R. P. Ciardi; B. Moreschini, Daniele Ricciarelli – Da Volterra a Roma. Milão, pp. 26-9, 199-200.

Artista

Daniele da Volterra (Daniele Ricciarelli, dito)

Data

1557

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

147 x 144 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

606A12 - Massacre dos inocentes

Autor

Luiz Marques

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