Duplo retrato, chamado Os Embaixadores (detalhe)

(continuação do comentário à imagem principal)

A superposição de dois níveis no móvel ao centro da cena
separa os numerosos objetos nele representados em dois
planos de significação. No plano superior, vêem-se um livro
(sobre o qual se lê a idade de Georges de Selve: Aetatis
suae 2…
), um globo celeste com as constelações do
Zodíaco e diversos instrumentos de mensuração astronômica:
um cilindro, chamado disco do pastor, dois quadrantes, um
poliedro solar e um torquetum, instrumento ptolomaico e
árabe, apto a comensurar três sistemas de coordenadas
celestes: horizontal, equatorial e elípticas.

No plano inferior, à esquerda, vêem-se objetos ligados à
cosmografia: um globo terrestre com, em amarelo, o mapa da
Europa, e mapas parciais da Ásia, da África e das Américas,
um esquadro, um compasso e um livro de aritmética, signos de
mensuração geométrica e algébrica. A porção direita da
prateleira pertence ao mundo da música e nela vêem-se um
alaúde com uma das cordas quebradas, um estojo de flautas e
uma partitura com um hino luterano pertencente ao livro
Geistlich Gesangbuchli de Johannes Walther
(Wittemberg, 1525).

A ostensiva exibição desses objetos científicos e suntuários
são genericamente atributos dos retratados e, como tal, tem
por função frisar sua elevada cultura, seu requinte e sua
riqueza. Mas elas não são, provavelmente, destituídas de
valores simbólicos mais complexos.

Desde logo, impõe-se a referência ao quadrivium, isto
é, às quatro disciplinas que compõem o saber das Escolas em
sua forma mais elevada: a astronomia, a geometria, a
aritmética e a música. Mas tanto quanto alinhamento de
saberes, parece haver aqui também contraposição entre o
registro superior e o inferior, vale dizer, entre a esfera
dos corpos celestes e a do mundo sublunar.

O registro superior remete à esfera do saber científico mais
abstrato, enquanto o inferior, ao saber mais prático da
geografia – figura elementar do espaço do poder (a cidade de
Polisy, feudo e castelo dos Dinteville, surge com evidência
no mapa da Europa) – e da música, seja como complemento à
prática devocional, seja em sua acepção deleitosa.

Além disso, os objetos musicais assumem um discurso próprio.
Assim, a corda rompida do alaúde pôde ser interpretada como
signo de ruptura da harmonia religiosa da Europa e o coral
alemão, como signo de uma tácita simpatia

Artista

HOLBEIN, Hans, o Jovem

Data

1533

Local

Londres, National Gallery

Medidas

207 x 209 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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