Autorretrato em um caco de espelho I

Assinado e datado: “Dix 1915”.

O rosto inclinado de Otto Dix (1891-1969) circunscreve-se no
que resta de um espelho e é imediata a sugestão, visual e
metafórica, de uma própria fragmentação neste autorretrato
tomado a partir de um caco de espelho disponível no front de
batalha.

Seu anterior “Autorretrato como soldado”* na Städtische
Galerie de Stuttgart –

veja: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3522

– mostra-o com o semblante de uma fera acuada, a olhar de
soslaio para o espectador. Mas se trata ainda propriamente
de um semblante dotado de expressão individual. Em outro
autorretrato, no verso dele, a expressão imerge em uma
obscuridade que a torna já irreconhecível e pouco mais se vê
que os olhos estranhamente brilhantes sob a aba do elmo
prussiano.

No presente carvão, o autorretrato reduz-se, enfim, à
simplicidade brutal de uma mancha sem qualquer pretensão à
singularidade de uma fisionomia. E, entretanto, este
semblante guarda, intocado, sobretudo no olhar, uma
acusadora vontade de expressão. Trata-se, de fato, de uma
admirável síntese visual do que um psiquiatra morto em campo
de batalha em outubro de 1918, Ludwig Scholz, chamou em suas
notas de trincheira de processo de “desindividualização” do
soldado.

Que Dix tenha realizado uma série de terríveis registros do
próprio semblante durante a guerra, dois dos quais tomados
em cacos de espelho –

veja: http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3528

– diz algo sobre o sentimento de precariedade existencial a
que o sujeitou a experiência limite e incomunicável do
front, a Fronterlebnis dos bombardeios, das
trincheiras, das mutilações, da íntima convivência com a
morte e, sobretudo, de dissolução da individualidade.

Mas mesmo os artistas não enviados ao front testemunham de
uma imperiosa necessidade de autorretrato, como que em
resposta, se diria, à ameaça de aniquilamento – físico,
psíquico e civilizacional – desse novo gênero de guerra, a
guerra total.

O autorretrato introspectivo torna-se então um confronto com
essa inquietante experiência de deslocamento da identidade
pessoal e cultural, que a língua alemã designa com o termo
Unheimlichkeit e que se costuma traduzir por
“estranha familiaridade”.

Desde sobretudo os decênios finais do século XIX, sobretudo
em área germânica, o gênero do autorretrato difunde-se com
uma insistê

Artista

DIX, Otto

Data

1915

Local

Coleção Particular

Medidas

441 x 344 mm

Técnica

Carvão

Suporte

Pintura

Tema

História Medieval Moderna e Contemporânea

Período

SÉCULO XX

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C3 - Artistas e Autorretratos;
872 - Batalhas e Guerras Nacionais na Europa; 872.1914 - A
Primeira Guerra Mundial; 1100Gue - A Guerra e os Horrores da
Guerra

Autor

Luiz Marques

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