A união do Desenho e da Cor

Registro inventarial: inv. 534

A obra tinha originalmente formato quadrado e é conhecida em
duas versões, consideradas ambas autógrafas por Baccheschi
(1971): esta, conservada no Louvre, e outra em Chatsworth,
coleção do Duque de Devonshire, que manteve o formato
original.

A alegoria do casal de jovens em silencioso colóquio
representa a união entre o Desenho e a Cor. O Desenho com o
lápis sobre o papel abraça a figura feminina da Cor que, em
posição de decorosa submissão e com os cabelos ocultos por
um turbante, segura uma paleta. Se a figura masculina do
Desenho tem posição mais ativa e dominante, a da Cor, como
sugere Richard Spear, “seems ready to nurture him like a
Maria lactans“.

Trata-se evidentemente de uma obra “de tese” de Guido Reni
(1575-1642), de uma intervenção pessoal em uma controvérsia
sobre as importâncias relativas do desenho e da cor na
pintura, controvérsia que afunda raízes na Antiguidade e
que em meados do século XVI havia se reavivado sob o
impacto das reações venezianas, patrocinadas por Pietro
Aretino e Ludovico Dolce, às “Vidas” de Vasari (1550).

Segundo seu biógrafo Carlo Cesare Malvasia (1678), Reni
tinha aversão por Tintoretto (aborrendo in ciò le licenze
di Tintoretto
) e concebia a oposição entre desenho e
cor em termos de concórdia, sob a liderança do primeiro.

Executada na primeira metade dos anos 1620, a obra assume a
função de verdadeiro manifesto, em especial no contexto do
breve pontificado do bolonhês Alessandro Ludovisi, Gregório
XV (1621-1623), marcado por uma forte presença de pintores
bolonheses em Roma e também pela afirmação na corte papal de
um novo “ideal clássico”, em oposição à voga já declinante
do caravaggismo.

Embora presentes ao longo da segunda metade do século XVI,
as teorias da supremacia do desenho sobre a cor haviam
ganhado nova atualidade em inícios do século XVII sob
influência de outro bolonhês, Monsenhor Giovanni Battista
Agucchi (1570-1632), maggiordomo do Cardel
Aldobrandini e secretário de Gregório XV, além de diplomata
e interlocutor de certo relevo de Galileo Galilei.

Agucchi é autor de um Trattato della Pittura de que
se conhece apenas um fragmento, publicado em 1646 no
prefácio, redigido por G. A. Mosini (pseudônimo de G. A.
Massani) para uma coletânea de gravuras de S. Guillain, a
partir de desenhos de Annibale Carracci.

O texto de Agucchi, redigido por volta de 1607-1615, conhece
uma autoridade sem rival – reiterada em 1672 pelas “Vidas”
de Gian Pietro Bellori – como promotor de um ideal de beleza
fundado no modelo de Rafael, renovado por Annibale
Carracci, Domenichino e pelo próprio Guido Reni. Este ideal
bolonhês de um rafaelismo reformado será a fonte mais
importante das teorias seiscentistas da arte que se
confrontarão a partir de meados do século em torno de dois
artistas paradigmáticos: Poussin, como exemplo da disciplina
e da retórica do desenho, e Rubens, como expoente da cor.

O caráter momentoso dessa intervenção de Guido Reni
manifesta-se nesses anos, por exemplo, na correspondência
entre Virgilio Calvezzi e o cardeal Sforza Pallavicino,
publicada por Clizia Carminati.

Na segunda metade do século XVII, a Académie Royale de
Peinture et de Sculpture, que entrementes consagrara o
pintor ao denominá-lo “le Guide”, sediava este debate e é
possível, como aventam os curadores da exposição “Rubens
contre Poussin” (2004), que a obra tenha sido adquirida por
Luís XIV em 1685 como uma intervenção régia neste debate.
Ela foi, de resto, adquirida por intermédio de Gabriel
Blanchard, um dos iniciadores da Querelle du coloris
com sua conferência de 1671 sobre “le mérite de la couleur”.

Luiz Marques
11/01/2011

Bibliografia:
1678 – C.C. Malvasia, Felsina Pittrice. Vite dei Pittori
Bolognesi. [Bologna]. Ed. M. Brascaglia, Bolonha, 1971
1960 – I. Toesca, “Agucchi, Giovanni Battista”. Dizionario
Biografico degli Italiani, ad vocem.
1971 – C. Garboli, E. Baccheschi, L´Opera completa di Guido
Reni, Milão: Rizzoli, n. 102.
1996 – S. Loire, École italienne, XVIIe siècle. I – Bologne.
Musée du Louvre. Département des Peintures. Paris: RMN, pp.
303-307.
1997 – R. E. Spear, The “divine” Guido. Religion, Sex, Money
and Art in the World of Guido Reni. New Haven: Yale
University Press, p. 30.
2004 – E. Delapierre, M. Gilles, H. Portiglia, Rubens contre
Poussin. La querelle du coloris dans la peinture française à
la fin du XVIIe siècle. Catálogo da exposição, Arras,
Épinal. Paris: Ludion, p. 80.
s/d – C. Carminati (ed.), Il carteggio tra Virgilio Malvezzi
e Sforza Pallavicino.
http://aisberg.unibg.it/bitstream/10446/626/1/Pallavicino.pd
f

Artista

RENI, Guido

Data

1620/ 1625

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

121 cm de diâmetro

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Alegorias e Temas Artísticos Morais e Psicológicos

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

1110 - As Artes do Disegno; 1110Des - Desenho; 1110Pin -
Pintura

Autor

Luiz Marques

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