Milagre de Santa Zita

Registro inventarial: inv. T. 1788

Zita é uma devota doméstica de uma família senhorial de
Lucca, cidade onde a santa transcorreu toda sua vida, entre
1218 e 1278. Foi popularmente proclamada santa na cidade,
logo após sua morte, quando se multiplicaram lendas sobre
sua piedade. A cena aqui representada descreve o momento em
que, interpelada pelos patrões quando dava secretamente aos
pobres os alimentos que levava em seu avental, Zita vê-os
transformados em flores.

A atribuição da obra ao pintor genovês, Valerio Castello
(1624 – 1659), constante na documentação do Museu, foi
confirmada por Mina Gregori (Comunicação oral a C. Rapucci,
em 1976-7) e reiterada por Michel Laclotte (C.O., Setembro
de 1989).

Trata-se de um delicado “bozzetto”, estudo de seleção
luminosa, onde se sente, na febrilidade do toque, o
estremecimento de uma primeira visão do tema. Sua versão
final é bem conhecida, pois encontra-se no altar central da
igreja epônima de Gênova, para onde foi originariamente
destinada.

No Museu de Palazzo Bianco, inv. 1921 (57 x 41), bem como na
Coleção Massola de Gênova, há outros dois modelletti
para a mesma composição, possivelmente posteriores ao nosso.
Há, ainda, no Ermitage, outrora na Coleção Crozat, uma
belíssima versão, completamente independente desta, a
demonstrar a popularidade do tema em Gênova.

C. Manzutti (1972) data a grande tela da igreja de S. Zita
em Gênova de 1653-54, o que fornece um seguro terminus
ante quem
para o esboço do Museu Nacional.

O mais jovem dentre os vinte filhos do pintor Bernardo
Castello (1557-1629), Valerio foi de uma precocidade
notável. Sua formação dá-se no ateliê de Fiasella e, talvez,
no de Giovanni Andrea de Ferrari. Tais experiências,
aparentemente superficiais na constituição de seu estilo,
mesclam-se a uma grande sensibilidade pelas obras flamengas
e vênetas que abundavam desde os anos 1620 nas coleções
genovesas.

Como tantos pintores genoveses da primeira metade do século,
Valerio Castello presta seu tributo juvenil aos afrescos de
Perin del Vaga no Palácio Doria, que ele copia
diligentemente. Sabemos, ademais, da enorme importância que
assumem, em sua juventude, as obras de Giulio Cesare
Procaccini, Correggio e Parmigianino, conhecidas em estadas,
durante os anos 1640, em Milão e Parma, de onde ele
regressa, no mais tardar, em 1647.

A introdução em Gênova de uma nova retórica pictórica de
cunho celebrativo, de que os afrescos de Giovanni Battista
Carlone (1603-1684) no Palácio Negrone são um exemplo
consumado, é o fato mais importante da cultura genovesa dos
anos 1650. Destes emerge a atividade de Valerio Castello e,
a rigor, o Barroco em Gênova.

De Procaccini e Van Dyck, Castello traz um senso da
saturação da cor, afogada na sombra espessa da tela, que
potencia os efeitos dramáticos e decorativos de uma
composição quase sempre muito povoada. Ele traz sobretudo
uma compreensão profunda do valor estético do
bozzetto, que lhe permite liberar as formas de toda
consistência plástica.

Luiz Marques
24/10/2011

Bibliografia:
1992 – L. Marques, Pintura Italiana Anterior ao século XIX
em Coleções Brasileiras. São Paulo, pp. 67 e 166.

Artista

CASTELLO, Valerio

Data

1653/ 1654

Local

Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes

Medidas

90 x 72 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806Zita -
Santa Zita

Autor

Luiz Marques

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