Gólgota

Não se conhecem os motivos que levaram Mihály Munkácsy
(1844-1900) a executar primeiramente a cena da Crucificação
do Cristo, intitulada Gólgota, e pintar posteriormente seu
Ecce Homo, invertendo a ordem dos acontecimentos.

O fato é que em 1884 estava pronta mais uma grande tela da
série, dessa vez contendo a Crucificação. O sucesso de
“Cristo diante de Pilatos” (1881) aumentou a expectativa do
público pela próxima obra que compunha a trilogia. Com
efeito, Gólgota atraíra mais espectadores que “Cristo diante
de Pilatos”, sendo exibida na França, Inglaterra e em
Budapeste.

Munkácsy já era um artista consagrado e a execução da
Trilogia de Cristo dava-lhe a supremacia das pinturas
religiosas do século XIX, principalmente em Paris.

“Gólgota” traz de volta a agitação solene da pintura de
1881. Os corpos em cena estão em plena ação. Temos, contudo,
a nítida percepção de que o artista os congelara num
instante, como em uma fotografia. Cristo olha para os céus e
profere suas derradeiras palavras, conforme o Evangelho de
Lucas: “Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito”. O céu
negro é apenas interrompido pela persistência de alguns
raios de sol que atravessam a espessa massa de nuvens no
canto superior esquerdo da tela.

Munkácsy fizera um autorretrato nesta tela: ele é Jesus, com
sua barba ruiva, de pele muito alva e, curiosamente, sem
marcas de sangue. Até mesmo os outros dois personagens
crucificados ao seu lado não as apresentam. Fica evidente o
sentido de ordem dessa cena: não há sinais de violência, não
há sangue derramado, existe apenas a coloração extremamente
viva da túnica de João que parece ter absorvido todo o
líquido vital e condensara-o em um único ponto essencial.

A inclinação da colina de Gólgota conduz o olhar do
observador. À esquerda temos um grupo de judeus: uma parte
já se retira do local, divididos entre a indignação causada
pela inscrição “INRI” (Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus)
sobre a cabeça de Jesus e entre o espanto e o fascínio do
acontecimento sobrenatural que presenciavam.

Alguns se voltam para o Cristo crucificado, abrem os braços,
levam as mãos ao rosto. A multidão se estende sobre toda a
largura da composição: a parte frontal é banhada pela luz do
ambiente, enquanto ao fundo se fundem numa massa disforme de
espectadores sombrios, sem identidade.

Aos pés da cruz de Jesus, sua mãe, Maria, agarra-se aos pés
de seu filho. Maria Madalena leva as mãos ao rosto e Salomé
abre os braços em reverência. Um soldado, em primeiríssimo
plano, sentado no chão com sua lança no colo, parece olhar
com curiosidade para toda a cena. É um contraponto
interessante diante da expressão de espanto do rapaz que
abre os braços no mesmo plano que o soldado. E, assim,
Munkácsy constrói toda sua tela: intercalando momentos de
ação e de contemplação, de indiferença e de espanto, de
expansão e retração.

Seu uso de cores é sóbrio: permite-se maiores ousadias
apenas nas vestes de João que acabam por torná-lo um dos
pontos focais mais importantes de Gólgota. Negros, ocres,
terras de Siena queimadas e variações de vermelho arrefecem
o ambiente denso e carregado do entorno. O corpo branco de
Jesus, banhando por uma luz divina, também chama para si o
olhar que percorre a tela.

A composição triangular admite três vértices muito claros: o
Cristo, o soldado sentado com a lança no colo no canto
direito inferior e o judeu montado a cavalo no canto
esquerdo. É no interior desse triângulo que se encontra o
epicentro da ação e toda a força da composição.

Richard Santiago Costa
02/04/12

Bibliografia
1993 – J.-Ph. Breuille (dir.), Dictionnaire de peiture et de
sculpture : l´art du XIX siècle. Paris: Larousse.

Artista

MUNKÁCSY, Mihály

Data

1884

Local

Debrecen (Hungria), Déri Museum

Medidas

460 x 712 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

50 - SÉCULO XIX

Index Iconografico

610 - Crucificação e Imagens do Gólgota

Autor

Luiz Marques

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