Duplo retrato com Luca Pacioli

Assinado e datado: “IACO.BAR.VIGEN/NIS. P.1495”.

É incerto o significado de “VIGEN/NIS”, ora interpretado
como vigennis, isto é, na idade de 20 anos, ora como
vigentinus, isto é, veneziano.

O quadro representa o matemático Luca Pacioli (1445-1517)
aos 50 anos, atrás de uma mesa sobre a qual vêem-se um
esquadro, um compasso e outros instrumentos de seu ofício. À
esquerda, é figurada uma tabuleta com o diagrama do livro
13, proposição 10 dos “Elementos” de Euclides, nome que se
lê na própria tabuleta.

O teorema em questão formula-se assim: “Se um pentágono
equilátero está inscrito em um círculo, então o quadrado do
lado do pentágono é igual à soma dos quadrados dos lados do
hexágono e do decágono inscritos no mesmo círculo”. O mesmo
teorema é ilustrado no “Retrato imaginário de Euclides”* por
Jusepe de Ribera (1630-35c.), conservado no J. Paul Getty
Museum de Los Angeles:

http://www.mare.art.br/detalhe.asp?idobra=3483

Aberto sobre a mesa à direita está o livro de Luca Pacioli,
Summa di aritmetica, publicada em Veneza em 1494.
Enfim, o jovem à direita é frequentemente identificado com
Guidobaldo da Montefeltro, dedicatário da obra de Pacioli.
Segundo Briganti, contudo, ele seria uma adjunção posterior.

Em suas Vite dei matematici (1587-1596), o polímata
Bernardino Baldi (1553-1617) refere-se provavelmente a esta
obra, cuja autoria ele atribui a Piero della Francesca, o
que induziu certos estudiosos modernos a supor um protótipo
do artista de Borgo San Sepolcro, da qual esta, assinada por
Jacopo de´ Barbari, seria uma derivação:

ne la Guardaroba de´ nostri serenissimi Principi in
Urbino il ritratto al naturale d´esso frate Luca col suo
libro avanti de la Somma di aritmetica et alcuni corpi
regolari finti di cristallo appesi in alto

“nos guardados de nossos sereníssimos Príncipes em Urbino, o
retrato ao natural deste frade Luca tendo à sua frente seu
livro, a Somma di aritmetica e alguns corpos
regulares como de cristal pendurados ao alto”.

Como sublinhado por Simone Ferrari (2006), “por sua
evidência descritiva e seu rigor sintático, a cena parece
quase um teorema, tendente a exaltar a matemática e a
geometria, em correspondência com o debate desencadeado por
Leonardo da Vinci sobre o estatuto de arte liberal da
pintura”.

A reivindicação da pintura ou da escultura como oitava arte
liberal tornar-se-ia um topos da literatura artística
já no primeiro decênio do século XVI. Para além de sua
precoce incidência em Leonardo (para quem a pintura é, de
resto, superior às demais artes), vale lembrar que ele
comparece na epístola De la ecelentia de pitura,
endereçada por Jacopo de´ Barbari a Frederico da Saxônia por
volta de 1501, na qual o artista insiste justamente na ideia
de que a pintura deve ser considerada a oitava arte liberal.

A mesma reivindicação retorna, aplicada à escultura, seja no
De sculptura de Pomponio Gaurico, seja na dedicatória
de seu editor, Marcantonio Placido, a Lorenzo Strozzi, em
1504.

Luiz Marques
09/11/2011

Bibliografia:
1504 – Pomponio Gaurico, De sculptura. Ed. e trad. ital. por
P. Cutolo, Nápoles, 1999, pp. 120-125.
1938 – G. Briganti, “Su Giusto di Gand”. La Critica d´arte,
III, pp. 104-112.
1971 – P. Barocchi, Scritti d´arte del Cinquecento, Milão,
Nápoles, vol. I, pp. 66-70.
1999 – P. Sabbatino, “Scrittura e scultura nell´umanista
napoletano Pomponio Gaurico”. P. Cutolo, Pomponio Gaurico.
De sculptura, Nápoles, pp. 11-47.
2006 – S. Ferrari, Jacopo de´ Barbari. Un protagonista del
Rinascimento tra Venezia e Dürer. Milão: Bruno Mondadoripp.
80-82

Artista

BARBARI, Jacopo de´

Data

1495

Local

Nápoles, Museo e Gallerie Nazionali di Capodimonte

Medidas

98 x 108 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

SÉCULO XV

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos;
1145Euc - Euclides

Autor

Luiz Marques

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