Duplo retrato, chamado Os Embaixadores

Assinado e datado no canto inferior esquerdo: “JOANNES
HOLBEIN PINGEBAT 1533

Sobre um piso de mármore com entalhes geométricos em estilo
cosmatesco (à maneira dos Cosmati, família romana dos
séculos XII e XIII, ativa também em Londres), tendo ao fundo
um cortinado de seda com brocados e um crucifixo (entrevisto
à extrema esquerda), duas personagens apoiam os braços de
cada lado de um móvel coberto por uma tapeçaria persa com
instrumentos musicais, livros e objetos de cosmografia e
astronomia. Pairando no ar, no primeiro plano, vê-se a
anamorfose de um crânio.

Mary Hervey (1900) identificou os retratados e sua pesquisa
é comprovada por um inventário de 1653. À esquerda, vê-se
Jean de Dinteville (1504-1555), Senhor de Polisy e
bailli (magistrado) de Troyes. Filho de Anne du
Plessis e de Gaucher de Dinteville, Jean de Dinteville é
desde 1531 embaixador da França na corte de Henrique VIII.
Ele porta um colar com um medalhão da Ordre de Saint-Michel,
segura uma adaga de ouro (na qual se lê: Aetatis suae
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) e veste-se com cetim rosa e preto, veludo preto
e uma pele de lince.

A anamorfose do crânio que paira a seus pés relaciona-se
antes de mais nada à sua divisa: Memento mori
(Lembra-te de que morrerás). O mote é de bom conselho pois a
fortuna de Jean de Dinteville não tardará a mudar. Em 1536,
seu irmão, Guillaume, é acusado de envenenar o Dauphin. É em
seguida inocentado, mas em 1538 seu outro irmão é acusado de
sodomia. Ambos exilam-se na Itália e logo seu terceiro
irmão, Francisco II, perderá o bispado de Auxerre. O “Moisés
e Aaron dian, Alegoria da Família Dinteville”* do
Metropolitan Museum de New York remete decerto a tais
reveses. Os Dinteville são reabilitados na década seguinte,
mas o destino de Jean será selado por uma doença que o
paralisa por dez anos e o leva à morte, sem herdeiros, aos
52 anos.

À direita, vestido em um hábito de damasco marrom, vê-se
Georges de Selve (1508-1541), personnage de grandes
lettres et fort vertueux
, como o qualifica o inventario
de 1653. Filho de Jean de Selve, primeiro Presidente do
Parlamento de Paris, Georges é nomeado canônico da Catedral
de Chartres, e bispo de Lavaur aos 18 anos, em 1526. Em
1529, toma parte na Dieta de Speyer de 1529, crucial para
a imposição a Carlos V da Reforma na Alemanha.

Georges tornar-se-á embaixador de Francisco I em importantes
capitais da Europa: em Veneza em 1535-1536, na corte de
Paulo III em 1536, em Viena em 1540 e na Espanha também em
1540. Por encomenda de Francisco I, traduzirá do grego para
o francês algumas das Vidas de Plutarco: Temístocles,
Camilo, Péricles, Coriolano, Timóleo e Paulo Emílio.

As circunstâncias que envolvem o nascimento da obra-prima de
Holbein são conhecidas. Em uma carta de 23 de maio de 1533,
Jean de Dinteville confidencia ao irmão mais velho, François
II, bispo de Auxerre e desde 1531 embaixador de França junto
à Santa Sé, que seu amigo fez-lhe a honra de vir visitá-
lo, e pede ao irmão para que a visita não seja revelada a
Anne de Montmorency (1492-1567), grand maître de
France
e, então, após o rei, o homem mais poderoso do
reino.

Ignora-se a razão desse pedido e a pauta da visita. Mas é
verossímil que Georges de Selve, a quem Francisco I confia
em seguida tantas missões fundamentais, tenha sido enviado
em segredo à Inglaterra para se informar com o amigo sobre a
situação da Inglaterra no momento em que a Reforma se
alastrava e em que Thomas Cranmer, Arcebispo de Canterbury,
referendava a anulação do casamento entre Henrique VIII e
Catarina de Aragão, à revelia do Imperador Carlos V (tio de
Catarina) e do papa Clemente VII. Pois Francisco I acompanha
com a máxima atenção a evolução da adiantada gravidez de
Anne Boleyn, de cujo filho ou filha (a futura Elisabete I)
ele seria padrinho.

Retido a contragosto em Londres para acompanhar essa
gravidez, Jean de Dinteville, que já fora retratado por Jean
Clouet (e o será em 1545c. por Francesco Primaticcio em um
retrato alegórico como São Jorge), sabe pôr a seu serviço a
reputação de Holbein, que, introduzido na corte de Henrique
VIII por uma carta de recomendação de Erasmo de Rotterdam,
nela se impusera graças ao célebre retrato da família de
Thomas Morus (destruído) e a tantos magníficos retratos de
personalidades da nobreza inglesa.

É incerta a razão pela qual Jean de Dinteville se faz
representar ao lado de Georges de Selve. É verdade que desde
inícios do século XVI se multiplicam os retratos duplos
consagradores de amizades entre humanistas, na tradição do
De amicitia de Cícero, mas se trata no presente caso
de um retrato custosíssimo, em escala natural e de corpo
inteiro, apanágio, com raras exceções, dos retratos régios.
Ademais, a amizade entre ambos não parece estreita, ou ao
menos não se documenta senão por uma breve menção em duas
cartas e por este retrato.

(continua no comentário à imagem de detalhe)

Artista

HOLBEIN, Hans, o Jovem

Data

1533

Local

Londres, National Gallery

Medidas

207 x 209 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

A Figura Humana Retratos e Caricaturas

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

1700C - Retratos Pintura; 1700C1 - Retratos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

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