As Mulheres Pias no Sepulcro (Le Marie al Sepolcro)

Registro inventarial: inv. 133

A cena da aparição do anjo no sepulcro de Cristo
ressuscitado a duas, três ou várias mulheres pias está
presente nos Evangelhos sinóticos com algumas variações. Em
Mateus (28), o anjo aparece a duas mulheres: Maria Madalena
e “a outra Maria”. Em Marcos (16), esta Maria é dita ser a
mãe de Tiago e a terceira mulher é chamada Salomé. Em Lucas
(24), elas são em número indeterminado e se fala da aparição
de dois anjos.

Um documento dos arquivos Farnese (Archivio di Stato di
Parma, cartella Schedoni, fili correnti 1614) de 20
de junho de 1614 atesta um pagamento:

per i due ornamenti o cornisoni di noce per li doi quadri
che ha fatto il S. Schedoni per metter sopra le porte delli
doi oratory che sono alle bande dell´altare grande della
chiesa delli Padri Cappuccini a fonte vivo
.

“pelos dois ornamentos ou molduras de nogueira para os dois
quadros que fez o S[enhor] Schedoni para serem colocados
sobre as portas dos oratórios situados ao lado do altar
grande da igreja dos Padres Capuchinhos em Fontevivo”

Para a franciscana Chiesa dei Frati Cappuccini de Fontevivo,
na Província de Parma, Bartolomeo Schedoni (1578-1615)
pintou além desta “Mulheres pias no Sepulcro”, outros dois
quadros: uma “Última Ceia” e uma “Deposição de Cristo no
túmulo”, hoje também no Museu de Parma.

Filho de Giulio Schedoni, um mascararo, isto é, um
fabricante de máscaras, a serviço dos Este em Módena e dos
Farnese em Parma, Bartolomeo Schedoni (1578-1615) é um
desses temperamentos que nada devem em intrepidez,
dramaticidade e agressividade ao de Caravaggio.

Sua curta vida, narrada por Lodovico Vedriani (1662), é
tragicamente interrompida por um provável suicídio, após uma
noite de perdas nos dados. Ela é pontilhada de brigas,
disputas por cortesãs, invasões de ateliês de colegas e ao
menos duas passagens pela prisão.

Trata-se na realidade do caso quase miraculoso de um pintor
provinciano, ativo apenas entre Parma e Módena, morto muito
jovem, mas criador de um mundo singular, inconfundível e,
sobretudo, em suas últimas obras-primas, como é o presente
caso, a par dos últimos desdobramentos do naturalismo
caravaggesco.

Sua estada juvenil em Roma, onde o envia Ranuccio I, duque
de Parma, em 1595, para trabalhar com Federico Zuccari, é
curta demais, em decorrência de uma doença, e demasiado
precoce para que pudesse presenciar o impacto de Caravaggio.
Este só lhe será acessível de modo indireto, através
possivelmente de Giovanni Lanfranco, que se transfere de
Roma a Parma em 1610.

Capaz de interpretar de modo fortemente pessoal o luminismo
sombrio da grande tradição emiliana do Cinquecento, de
Correggio a Niccolo dell´Abate, de Parmigianino a Bedoli,
seus mais importantes modelos parecem ser Ludovico Carracci
e Scarsellino. Mas Schedoni é um transfigurador dessa
tradição. Ele cria uma própria concepção da luz – ao mesmo
tempo naturalista e metafísica – de uma beleza e
complexidade comparáveis aos grandes mestres de sua geração
ativos em Roma e em Bolonha.

É única a força de seu colorido e de seus brancos lunares, e
sua gestualidade ampla tem a suspensão e a artificialidade
espetacular da tragédia. Como bem afirma Lucia Fornari
Schianchi, a luz em Schedoni “bate com violência sobre os
panos arranjados em pregas pesadas e anula os traços
fisionômicos dos semblantes”. Talvez não seja um acaso que
os rostos de sua figura tenham a eficácia simples e teatral
das máscaras fabricadas por seu pai.

O tema da Visitatio sepulcri é especialmente
apropriado a Schedoni, seja por suas relações com o teatro
(trata-se, desde ao menos o século XIII, de um dos mais
recorrentes “tropos” do drama sacro), seja pela oportunidade
de pôr em cena os brancos resplandescentes das vestes do
anjo, traço comum aos três Evangelhos. E pode-se advinhar o
prazer de Schedoni ao ler em Mateus que o anjo tinha “o
aspecto do raio e suas vestes eram brancas como a neve”.

Luiz Marques
15/01/2012

Bibliografia:
1662 – L. Vedriani, Raccolta de Pittori, Scultori, Et
Architetti Modonesi Piu Celebri. Bolonha, 1970, p. 102-112.
1983 – L. Fornari Schianchi, La Galleria Nazionale di Parma.
Parma, Artegrafica Silva, p. 148.
1986 – D. C. Miller, “Bartolomeo Schedoni”, in A. Emiliani,
et alia, The Age of Correggio and the Carracci. Emilian
Painting of the Sixteenth and Seventeenth Centuries.
Catálogo da exposição, Bolonha, New York, Washington, p.
526.

Artista

SCHEDONI, Bartolomeo

Data

1613/ 1614

Local

Parma, Galleria Nazionale

Medidas

199,8 x 281 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

618 - Cenas após a Ressurreição; 618.2 - As Mulheres pias no
Sepulcro

Autor

Luiz Marques

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