Vulcano acorrenta Prometeu

Registro inventarial: inv. 1976.A1606

Da união de Japetos, um Titã, e de Climenes, uma Oceânida, nascem Menoitos, Epimeteu, Atlas e Prometeu, todos punidos por Zeus, ele próprio filho de outro Titã, Cronos.

O complexo de mitos ligados a Prometeu é de uma singular riqueza e complexidade, comparecendo em inúmeras fontes antigas (e modernas), desde Hesíodo, Teogonia, 507 e Os Trabalhos e os Dias, 42-105. Em Hesíodo é ainda o próprio Zeus que pune o criador e benfeitor da humanidade, como nesta passagem da Teogonia:

“Quanto a Prometeu, de sutis desígnios, Zeus aprisionou-o em correntes inextricáveis, presas a uma coluna. Depois, lançou sobre ele uma águia de amplas asas e a águia comia seu fígado imortal, que se refazia durante a noite”.

A figura de Vulcano (Hefaístos) como mediador da vingança de Zeus surge já nos Trabalhos e os Dias (onde a vingança toma a forma de Pandora), mas seu momento de máxima densidade dramática é a tragédia Prometeu acorrentado atribuída a Ésquilo, provavelmente concebida no âmbito de uma trilogia – Prometeu acorrentado, Prometeu libertado e Prometeu portador do fogo -, da qual se perdeu a sequência (conservam-se apenas fragmentos do Prometeu libertado).

Nela, o habilidoso Prometeu, a quem Zeus deve em parte sua vitória sobre os Titãs, surge como o piedoso salvador da humanidade, frustrando os planos de Zeus que entendia aniquilá-la, criando outra em seu lugar. Ao ensinar aos homens o uso do fogo e outros ofícios, Prometeu atrai sobre si a cólera do novo soberano dos céus, que o pune para todo o sempre com a terrível tortura nos desertos da Cítia, no Cáucaso.

A presença de Hermes nesta composição de Dirck van Baburen (1595c.-1624), assinada e datada de 1623, remonta decerto à tragédia de Ésquilo, que introduz a divindade da comunicação ao final da peça. Sabedor de que a mãe de Prometeu revelara-lhe um segredo – segundo o qual o casamento de Zeus com Tétis geraria um filho que destruiria o genitor -, Zeus manda Hermes ir ter com o herói para que este o revele. Os últimos versos dessa tragédia conservada em estado fragmentário anunciam as perturbações cósmicas em decorrência das quais Prometeu será arremessado ao Tártaro.

Entretanto, como demonstrado por Bikker, a presença de Hermes com um sorriso zombeteiro destoa obviamente da tragédia. Na realidade, tanto esta obra de Baburen como a homônima tela de Jacob Jordaens (Colônia, Wallraf-Richartz Museum, 1640) não se inspiram em Ésquilo, mas provavelmente em Luciano – autor que Erasmo de Roterdam lança na circulação sanguínea da cultura europeia -, cujo diálogo Prometheus es in verbis fornece o espírito truculento e farsesco dessa composição. No mesmo sentido, pode-se lembrar o diálogo Prometeu e Zeus, o quinto dos satíricos Diálogos dos Deuses de Luciano, embora neste Hermes não compareça.

Luiz Marques
18/07/2011

Bibliografia:
1958 – O. Raggio, “The myth of Prometheus: its survival and metamorphoses up to the eighteenth century”. Journal of the Warburg and Courtauld Institutes, 21, pp. 44-62.
1979 – B. Nicolson, Caravaggism in Europe. 2a ed. revista e ampliada por L. Vertova. Turim: Umberto Allemandi, volume I, p. 53
2004-2005 – J. Bikker, “Lucian´s Prometheus as a Source for Jordaens and van Baburen”. Simiolus: Netherlands Quarterly for the History of Art, 31, 1/2, pp. 46-53

Artista

BABUREN, Dirck van

Data

1623

Local

Amsterdam, Rijksmuseum

Medidas

202 x 184 cm

Técnica

Óleo sobre tela

Suporte

Pintura

Tema

Mitologia, História e Topografia Antigas

Período

SÉCULO XVII

Index Iconografico

10Cron - Saturno Cronos; 11Pro - Prometeu; 12Vul - Vulcano, Hefaístos, Mulciber; 12Vul12 - Vulcano acorrenta Prometeu; 12Mer - Mercúrio, Hermes

Autor

Luiz Marques

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