Monumento funerário a Francesco Gonzaga

Localização inventarial: inv. 1420

Ainda que este desenho para o monumento funerário de Francesco II Gonzaga (morto em 1519) possa trair a colaboração de Luca Penni, a concepção do monumento é de Rafael.

O aspecto generalizadamente antiquizante do projeto oculta o fato que nada nele se baseia em qualquer modelo funerário, visual ou textual, da Antiguidade. Tampouco sua iconografia obedece a qualquer tipologia funerária antiga. Não derivam desta a estátua equestre de Marco Aurélio, de tipo restitutor pacis, e menos ainda os dois colossos fluviais, símbolos aquáticos do território mantovano, posto que alusivos aos rios Mincio e Pó. De cunho igualmente aquático, mas de identificação menos evidente, é a figura feminina com uma ânfora ou hídria de onde jorra água, ao centro da composição. Poder-se-ia tratar, como se interrogam Dominique Cordellier e Bernadette Py, de Amímone, a princesa argólida que Poseidon amou e a quem revelou a fonte de Lerna? A hipótese parece difícil de demonstrar, tanto mais porque as raríssimas representações de Amímone entre finais do século XV e a primeira metade do século XVI monstram-na com sátiros e com Poseidon, no âmbito da temática das metamorfoses e/ou dos Amores dos Deuses. É o caso do desenho na J.P. Morgan Library e da correspondente gravura de Girolamo Mocetto, ambas de ambiente mantegnesco.

Nos anos 1550, Amímone recomparece no mesmo contexto mitológico na decoração do Nymphaeum da Villa Barbaro em Maser, executada por Marc´Antonio Barbaro. Poder-se-ia assim, alternativamente, identificar nossa figura com Manto, a fatidica Mantus de Virgílio (En. X, 198-200) e de Dante (Inf. XX, 52-99), figura hepônima de Mântua, caso em que sua hídria assumiria o valor de um símbolo do lago que circundava completamente a cidade antes do aterro do Lago di Paiolo ou mesmo de uma genérica alegoria das águas de Mântua.

No que se refere à batalha no registro inferior do projeto, sua fonte visual é um relevo de época traiana do Arco de Constantino, sublinhando o caráter marcial do monumento, já avançado no contraponto Minerva/Marte do registro médio. Com exceção da incerta figura de Amímone ou de Manto, que preside a composição, deparamos por toda a parte no desenho rafaelesco com referências basilares da escultura monumental romana, mas são elas concebidas aqui tão somente como exempla, como um florilégio de excelências, graciosamente redispostas no projeto do artista moderno ao sabor de sua genial fantasia (inventioni che me naschono per la fantasia, dirá ele a Fabio Calvo a respeito de outro projeto), sem qualquer observância da sintaxe e da específica simbólica dos modelos funerários antigos. Seis anos mais tarde, em 1525, o projeto para o monumento sepulcral ao duque e à duquesa de Sessa, de Giulio Romano – a se o poder reconhecer, conforme sugere Shearman, em um desenho da coleção Chatsworth – não faria mais que radicalizar esta programática inobservância da sintaxe funerária antiga.

Sobre as divindades fluviais do projeto de Rafael, Morrogh sugeriu tangências morfológicas entre essas figuras de 1519 e os monumentos funerários na Sacristia Nova dos duques Lorenzo e Giuliano, (1519-1524?), na base dos quais Michelangelo pretendera, um momento, colocar divindades fluviais, fato assegurado por testemunhos gráficos, epistolares, pelos dois modelli conservados na Casa Buonarroti, por uma passagem dos Marmi de Anton Francesco Doni e talvez por versos de 1546 de Gandolfo Porrino, citados nas Due Lezioni de Benedetto Varchi:

E i magnanini re del Tibro e d´Arno / I gran sepolcri aspeteranno indarno (E os magnânimos reis do Tibre e do Arno / Os grandes sepulcros esperarão em vão).

Para Rafael, tratava-se de “aplicar” a um monumento funerário, como engenhosas metáforas do território mantuano, dois testemunhos recém-exumados da escultura antiga, então no ápice de seu prestígio: o Tibre, descoberto em 1512 e levado em procissão triunfal para o Vaticano, e o Nilo, descoberto sob o pontificado de Leão X.

Luiz Marques
12/10/2010

Bibliografia

1992 – D. Cordellier, B. Py, Raphaël. Autour des dessins du Louvre, cat. da exposição, Villa Médicis, 1992, pp. 266-271.

1992 – A. Morrogh, “The Medici Chapel: The Designs for the Central Tomb”, Proceedings of the symposium Michelangelo Drawings (1988), Studies in the History of Art, 33. Center for Advanced Study in the Visual Arts. Symposium Papers XVII. Ed. por C. Hugh Smyth e A. Gilkerson. Washington: National Gallery of Art, p. 149.

Artista

Rafael (e ateliê)

Data

1519

Local

Paris, musée du Louvre

Medidas

499 x 269 mm

Técnica

Desenho

Suporte

Pintura

Tema

História Medieval Moderna e Contemporânea

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

508 - Mausoléus, tumbas, sepulcros, lápides; 508B - Monumentos funerários; 432F - Cenas de Lutas e Batalhas Mitológicas e Históricas; 1700B1 - Retratos escultóricos contemporâneos

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *