Santa Cecília ao trono com oito histórias de sua vida

Registro inventarial: inv. 1890, n. 449

Nada se sabe sobre a existência histórica de Santa Cecília,
mártir romana. Segundo Réau (1957), sua lenda derivaria da
“História da Perseguição Vândala” (486c.) de Bernardo de
Vite. Ambrósio se refere a esta lenda. A partir dos anos
1270, seu texto de referência é a Legenda aurea de
Jacopo de Varazze.

Forçada a casar-se com Valeriano, ela converte o marido, na
noite de núpcias, ao cristianismo e ao ideal de castidade, e
este se faz batizar pelo papa Urbano I (222-230).

Seu culto surge cedo, pois a basílica de S. Cecília in
Trastevere é citada já no século V e se elevaria, talvez, no
local da residência de Valeriano ou da gens Cecili, onde
Urbano I teria consagrado um oratório ou uma ecclesia
domestica
, conforme A.D. Tani (1922) e Mariano Armellini
(1891).

Contudo, a iconografia de Cecília é rara antes desta obra,
conservando-se apenas em um mosaico do século VI em S.
Apollinare Nuovo em Ravenna e nos relevos do século XIII do
portal da igreja homônima de Colônia.

No retábulo dos Uffizi, primeira representação conhecida
da lenda, a santa tem por atributos a palma e o livro,
signos do martírio e da doutrina (a relação com a música
surgiria apenas em finais do século XV, derivada de uma
leitura errônea de sua Passio).

Aos lados, as seguintes cenas, baseadas em Jacopo de
Varazze:

1. Núpcias de Cecília e Valeriano;
2. Cecília recusa-se a Valeriano e revela-lhe sua casta
relação com um anjo de Deus;
3. Convertido em face da aparição de um anjo, Valeriano e
Cecília são coroados por um anjo com rosas e lírios “que
reúnem o brilho da púrpura à brancura da neve”;
4. Cecília predica a Valeriano e a seu irmão, Tibúrcio,
contra os ídolos;
5. Batismo de Tibúrcio pelo papa Urbano em uma basílica;
6. Cecília pregando a fé cristã;
7. Condenação à morte de Cecília e de Valeriano pelo
prefectus Almáquio;
8. Martírio de Cecília em um caldarium.

Este retábulo não comparece na edição Torrentiniana de 1550
da “Vida de Cimabue”, mas na edição Giuntina de 1568, Vasari
cita-o como a primeira dentre as obras por ele atribuídas ao
pintor florentino:

[Cimabue] se bene imitò que´ Greci, aggiunse molta
perfezione all´arte, levando gran parte della maniera loro
goffa, onorò la sua patria col nome e con l´opre che fece,
di che fanno fede in Fiorenza le pitture che egli lavorò,
come il dossale dell´altare di S. Cecilia et in S. Croce uma
tavola drentovi uma Nostra Donna

[Cimabue] “ainda que tenha imitado aqueles gregos [isto é,
os pintores bizantinos], acrescentou muita perfeição à arte,
suprimindo muito da maneira rústica deles, honrou sua pátria
com seu nome e suas obras, do que dão fé, em Florença, o
retábulo do altar de S. Cecília e, em S. Croce um quadro
representando uma Madona”.

A atribuição vasariana a Cimabue foi reivindicada também por
Giovanni Battista Gelli (1498-1563) e por outros eruditos
dos séculos XVII e XVIII, mas contestada já por Luigi Lanzi,
em finais do século XVIII, e os estudiosos modernos
atribuem-na a um pintor anônimo, discípulo de Giotto
sobretudo nos três últimos afrescos das 28 cenas que compõem
o ciclo franciscano de Giotto na Basílica Superior de Assis
(1297c.). Este mestre anônimo, intérprete de Giotto em chave
miniaturista e mais narrativa, é conhecido pelo nome
convencional de Maestro di Santa Cecilia.

A ele se atribuem em geral, além dos afrescos de Assis, três
outros retábulos sucessivos: a “Madona com o Menino” e a “S.
Margarida e seis cenas de sua Vida”, ambos na igreja
florentina de S. Margherita a Montici, bem como o “S. Pedro
ao trono com dois anjos” da igreja de SS. Simone e Giuda,
datado de 1307.

A datação gravita em torno de 1304, data do incêndio da
igreja de Santa Cecilia, reconstruída apenas em 1341. Para
Mina Gregori (e outros estudiosos anteriores, como Suida), a
obra teria sido executada “immediately after 1304 for the
Florentine church of Santa Cecilia”, enquanto para outros
historiadores, como Giovanni Previtali (notas à ed. Vasari
de 1967), a obra deve ser datada “anteriormente all´incendio
della chiesa di S. Cecilia”.

Luiz Marques
03/12/2011

Bibliografia:
1550-1563 – G.B. Gelli, “Venti vite d´artisti”, publicadas
por Girolamo Mancini. Archivio storico italiano, série V,
XVII, 1896, p. 32.
1568 – G. Vasari, Delle Vite de´ più eccellenti pittori
scultori et architetti… Florença: Giunti.
1891 – M. Armellini, Le Chiese di Roma dal secolo IV al XIX.
Roma: Edizioni del Pasquino, p. 670.
1922 – A. D. Tani, Le chiese di Roma, Turim, p. 108
1937 – G. Sinibaldi, G. Brunetti, Pittura italiana del
Duecento e del Trecento. Catalogo della Mostra Giottesca di
Firenze del 1937. Florença: Sansoni, pp. 381-385.
1994 – M. Gregori, Paintings in the Uffizi and Pitti
Galleries. , New York: Little Brown Co., p. 30.

Artista

Maestro di Santa Cecilia

Data

1304c.

Local

Florença, Galleria degli Uffizi

Medidas

85 x 181 cm

Técnica

Têmpera sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

OCIDENTE MEDIEVAL

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806Ceci - S.
Cecília

Autor

Luiz Marques

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