O Martírio dos Dez Mil

“Registro inventarial: inv. 1912 n. 182

A fonte textual do Martírio dos Dez Mil é a lenda de Santo
Acácio, reportada no Catalogus Sanctorum de Petrus de
Natalibus, um bispo veneziano do século XIV, publicado em
1493. Seu modelo é, como pensa Merrit, a lenda de S.
Mauricio e a legião tebana e sua popularidade é grande
sobretudo na Europa do Norte, onde S. Acácio é incluído
entre os 14 Santos Intercessores (culto iniciado em Bamberg
e em Regensburg).

Albrecht Dürer representa a cena em xilogravuras de 1498 (B
117) e em uma tela de 1507 ou 1508, ao seu retorno a
Nüremberg. O tema ganha força em Veneza com a publicação do
Catalogus Sanctorum , várias vezes reeditado no
século XVI, e a aparição do mártir intercessor a Francesco
Ottoboni na peste de 1511, o que leva seu sobrinho, Cardeal
Ettore Ottoboni, a encomendar a Carpaccio em 1515 o grande
retábulo para a igreja de San Antonio di Castello, hoje na
Galleria dell’Accademia de Veneza.

Em Florença, antes de Pontormo, Lorenzo di Bicci (segundo
Vasari), Bachiacca (1521) e Perin del Vaga (1523) dedicaram-
lhe complexas composições, ocasião para este último de tirar
proveito da “”Batalha de Óstia”” de Giulio Romano e do cartão
da “”Batalha de Cascina”” de Michelangelo. Segundo Paul
Joannides, entre abril e novembro de 1506, o próprio
Michelangelo pode ter realizado estudos para um afresco
sobre este tema, de que se conservariam diversos desenhos
preparatórios.

Os imperadores Adriano (117-138) e Antonino Pio (138-161)
enviam Acácio e Eliade com um contingente de nove mil
soldados para reprimir uma rebelião de cem mil rebeldes na
Armênia. Os soldados venceram os revoltosos com a ajuda de
um anjo, que os converte e os batiza sobre o Monte Ararat,
predizendo-lhes o futuro martírio.

Adriano e Antonino Pio lançam contra os conversos um
contingente de mil soldados. Acácio e Eliade são lapidados,
mas as pedras são rejeitadas para trás. Os cristãos são
salvos do martírio por um terremoto, o que leva à conversão
de outros mil soldados. Impressionados por estes e outros
prodígios, os imperadores decidem fazer sacrifícios aos
anjos, tomando-os por divindades, mas os dez mil conversos
pedem para serem crucificados, a exemplo de Cristo. O rei
Sapor, governador da Armênia, ordenou a crucificação de
todos no monte Ararat.

Na Vita di Pontormo (1568), Giorgio Vasari descreve
essa obra com grande acume, confundindo, contudo, o tema
deste martírio com o do martírio dos onze mil sob
Diocleciano:

In un quadro d´un braccio e mezzo fece alle donne dello
Spedale degl´Innocenti, in uno numero infinito di figure
piccole, l´istoria degl´undicimila Martiri stati da
Diocleziano condennati alla morte e tutti fatti crucifiggere
in un bosco: dentro al quale finse Iacopo una battaglia di
cavalli e d´ignudi molto bella, et alcuni putti
bellissimi,  che volando in aria aventano saette sopra i
crucifissori; similmente intorno all´imperadore che gli
condanna sono alcuni ignudi che vanno alla morte,
bellissimi. Il qual quadro, che è in tutte le parti da
lodare, è oggi tenuto in gran pregio da don Vincenzio
Borghini, spedalingo di quel luogo e già amicissimo di
Iacopo
.

“”Em um quadro de uma braça e meia, fez para as mulheres do
Spedale degl’Innocenti, em um número infinito de pequenas
figuras, a história dos Onze Mil Mártires condenados à morte
por Diocleciano, que os fez crucificar em um bosque. Neste
quadro, Iacopo pintou uma batalha equestre e de nus muito
bela e alguns anjinhos belíssimos que, esvoaçando, despedem
setas sobre os crucificadores. À volta do imperador que os
condena, veem-se alguns nus levados à morte, belíssimos. A
obra, admirável em todos os aspectos, é hoje possuída e
muito louvada por don Vincenzio Borghini, spedalingo
deste Spedale e outrora amicíssimo de Iacopo””.

Elizabeth Cropper viu no tema da obra de Pontormo uma velada
referência à conjuntura política de Florença após agosto de
1530, vencida e martirizada pelos imperiais. Neste contexto,
lembra a estudiosa:

“”A semelhança entre a figura do rei Sapor e a contemporânea
escultura de Michelangelo do duque Giuliano para a Sacristia
Nova foi, por isso, interpretada como um signo de
hostilidade em relação aos Medici””.

A hipótese é plausível e reforça ainda mais a percepção de
que o “”Giuliano”” de Michelangelo fornece o novo modelo da
estatuária imperial antiga, ainda quando se trata de um
modelo de valor ideológico negativo.

Há um desenho preparatório muito desenvolvido para esta
composição na Kunsthalle de Hamburgo.

Luiz Marques
24/02/2012

Bibliografia:
1568 – G. Vasari, Vita di Puntormo, Vite dei più eccellenti
pittori, etc, ed. Bettarini-Barocchi, vol. V, p. 325.
1963 – H. Merrit, “”The Legend of St. Achatius: Bachiacca,
Perino, Pontormo””. The Art Bulletin, XLV, pp. 258-263.
1996 – E. Cropper, in A.M. Petrioli Tofani, L´officina
della maniera. Varietà e fierezza nell´arte fiorentina
del Cinquecento fra le due repubbliche 1494-1530. Catálogo
da exposição, p. 382.”

Artista

PONTORMO (Jacopo Carucci, chamado Il)

Data

1530c.

Local

Florença, Galleria Palatina, Palazzo Pitti

Medidas

65 x 73 cm

Técnica

Óleo sobre madeira

Suporte

Pintura

Tema

Bíblia e Cristianismo

Período

36 - SÉCULO XVI

Index Iconografico

806 - Imagens e Ciclos Biográficos de santos; 806Acac -
Santo Acácio

Autor

Luiz Marques

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *